Marketing do adeus
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quarta-feira, 02 de julho de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Nas viagens que Andrei Matzenbacher tem feito para os congressos de cemitérios pelo País, uma coisa tem lhe chamado à atenção: a maneira agressiva como empresas do ramo funerário anunciam seus produtos. No Rio de Janeiro conheci um caso incrível. Um cemitério colocava um outdoor ao lado de um de uma operadora de celular que anunciava Vivo, a partir de R$ 200. Ele usava o mesmo boneco da empresa de telefonia, acompanhado dos dizeres Morto, a partir de R$ 3 mil. Esse tipo de humor não funciona com o público do Sul, em especial o curitibano.
Matzenbacher é o diretor do grupo Jardim da Saudade, com sede em Curitiba e unidades em Pinhais e Blumenau, além do Crematorium Metropolitan também na capital paranaense. A empresa começou com seu avô Jayme, em 1969, com o slogan A solução moderna para um velho problema. A proposta era representar o conceito de cemitérios-parque, importado dos Estados Unidos. Todo mundo tinha aquela idéia dos cemitérios públicos, naquele ambiente feio e triste. O ambiente mais alegre, com um campo florido e árvores, ajuda a confortar a família. Tem gente que até vem correr aqui de manhã, comenta, citando o caso dos corredores que recentemente viraram tema de reportagem na TV.
Hoje, o crematório do grupo trabalha com o slogan Tranqüilidade para quem fica, em uma propaganda que está sendo anunciada nas rádios. No momento difícil, os gastos já são muitos e é complicado para sair em busca de um lote. Por isso, buscamos que as pessoas façam previdência. No caso da cremação, o custo de R$ 3.150 pode ser parcelado em até 24 vezes.
O pontagrossense Carlos Sysocki, que fez 33 anos há muito tempo atrás, fica esperando o cliente bater em sua porta. O dentista não sai por aí batendo de porta em porta. Quando você tem dor de dente vai até o consultório. O mesmo acontece com o meu cliente aqui, diz Sysocki, dono da Funerária Paranaense desde 1975. Ele não tem vendedores e diz ser contra o uso de propaganda em seu ramo.
Sysocki conta que é do tempo em que se tirava a medida do morto. Hoje, além do caixão padrão com 1,90m de comprimento, vende muitos outros, na tentativa de ampliar o seu público. É caixão para judeu, católico, evangélico, maçônico, explica enquanto aponta para um deles com uma pomba branca e uma mensagem da Bíblia.
No final da década de 1980, um pedido inusitado o levou a produzir uma nova série. A família de um torcedor do Paraná Clube queria o caixão do pai com o azul, vermelho e branco do time. Desde então, já fez alguns com as cores dos times da capital e de outros tantos. Cada um custa R$ 1.710. Mas é exceção. A maioria sai com a bíblia ou com a imagem de Cristo na tampa.
Sysocki é fã da dupla sertaneja Milionário e Zé Rico, e repete o estilo deles pintando a unha do mindinho direito de vermelho. Além da funerária, é dono do Cemitério Ecológico Jardim da Colina. Nos carros do empreendimento, a frase destacada é Respeito ao ser humano e à natureza. Ecologicamente, é o mais correto possível. As pessoas se preocupam muito com isso e ligam para saber o porquê do ecológico, diz.
Sysocki também é fã do Paraná Clube. Para o seu funeral, não tem dúvidas: vai de caixão tricolor. As previsões são boas. Não bebo, não fumo. Então vai demorar. O meu time já está enterrado, mas meu desejo é um só: vou deitado com meu Paraná.


