Atrás da casa dos pais, no bairro do Bigorrilho, fica uma singela pepinaria onde Iára Spodarik Serathiuk, 53 anos, produz conservas salgadas, geléias, patês, pães e bolos, boa parte com os segredos da culinária ucraniana herdada dos pais. Lá, dona Iára também prepara os tradicionais pepinos azedos na salmoura e folhas de parreira, durante a temporada, entre os meses de outubro e abril. Os pepinos são produzidos para serem consumidos pela família dela - pais, filhos e netos -, e pelos 150 clientes que compram a iguaria há mais de 35 anos.
Os pepinos feitos com o mesmo processo artesanal utilizado pela bisavó de Iára são uma espécie de tesouro da família que resguarda os detalhes do preparo. Todos enchem a boca d'água só de mencionar a comida. ''As crianças com 8 meses já ficavam chupando pepino. Meus quatro filhos adoram e meus netos também. O pepino que fazemos não é aquele japonês encontrado em mercados, em conserva e com vinagre. É o pepino comum azedo na salmoura, fermentado e natural, sem conservantes'', esclarece Iára Serathiuk, que produziu na última temporada uma tonelada de pepino na salmoura.
Ela compra a verdura e as folhas de parreira de produtores da Região Metropolitana, assim como os temperos utilizados: folhas de louro, alho e galhos de endro fresco picados. Este último, é um dos segredos do prato. Outros fazem parte do processo de preparo. Os pepinos são armazenados em barris de cerâmica - cerca de 40 kg por vez -, dispostos em pé e em círculos, com o cuidado de ficarem bem apertadinhos. Por cima, Iára coloca os temperos e cobre com as folhas de parreira. Repete o procedimento até preencher o barril, que é cheio com água fria e sal, e coberto com uma tampa de pedra bem pesada.
''Há seis anos me dedico apenas a pepinaria. Por 30 anos, minha função foi a pêssanka. Meus pais me ensinaram a fazer os pepinos ainda pequena, uma tradição ucraniana feita pelos meus antepassados'', conta Iára, que depois de prontos, guarda os pepinos em pequenos potes de vidro ou em sacos de 1 kg para venda.
''Precisa entender um pouco de metereologia também. Se estiver no verão, deixamos o pepino na salmoura por seis dias, se estiver frio, pode ficar uns 12 dias. É preciso que fique bem tampado para os pepinos não flutuarem e ficarem bem crocantes'', ensina o bem humorado pai de Iára, o ucraniano João Spodarik, de 94 anos.
Foi em 1929, que seo João chegou ao Brasil. Aqui casou com uma descendente de ucranianos e formou família. Além das roupas, trouxe na bagagem essa tradição gastronômica preparada e vendida, durante décadas, na sua antiga mercearia no Bigorrilho, onde também fazia o chucrute e doces típicos.
''Aprendi a fazer tudo com minha mãe. Na Ucrânia, a fermentação é uma alternativa para se comer verduras e frutas durante o inverno'', conta o dido (avô em ucraniano), que não disfarça o brilho nos olhos ao falar do processo de feitura dos pepinos na salmoura.
A iguaria não pode faltar na casa da filha de Iára, a empresária Cláudia Serathiuk, 36 anos, mãe de Henrique, 6, e Matias, 5. ''É o cheirinho da minha infância e os meus filhos herdaram o mesmo gosto pelos pepinos. Adoramos. Não pode faltar no Natal, acompanhando uma cervejinha ou carnes. Em casa, faço para as crianças sanduíches com queijo e pepinos'', conta Cláudia, observada pelos dois pequenos, que concordam sobre o sabor do prato. ''Gostamos muito porque é azedinho'', disse Henrique, enquanto se deliciava com um pepino, assim como o irmão.

mockup