Mãos de chumbo sobre a sociedade
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Maria Duarte De Curitiba 
Os reflexos do golpe militar de 1964 no Paraná vão desde a cassação de mandatos e suspensão de direitos políticos, prisão de estudantes, trabalhadores e militante e tortura nos quartéis.
O médico e deputado Walter Alberto Pecoits, eleito pelo PTB, preso no dia 9 de agosto de 1964, é acusado de insuflar uma revolta de posseiros na região de Três Barras (município de Catanduvas, Oeste). Sua prisão preventiva é decretada apenas no dia 21 do mesmo mês. Brutalmente espancado em uma cela e atingido pela coronha de uma arma, Pecoits ficou cego de um olho.
O deputado Sinval Martins foi torturado por policiais em um matagal próximo a Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. Com problemas cardíacos, Martins não resiste aos maus tratos e morre poucos dias depois.
A partir de 1966, o movimento estudantil, calado nos primeiros tempos do regime militar pela pressão e pelo medo, retoma suas atividades, de modo aberto, nas entidades que ainda funcionam, como o Diretório Central de Estudantes (DCE) e a União Paranaense dos Estudantes (UPE). Fora da universidade, os estudantes protestam contra a eleição indireta do presidente da República e enchem os muros das cidades com pichações a favor do voto nulo e contra a ditadura.
Em maio de 1968, os estudantes tomam as ruas das cidades, exigindo eleições, mudanças no sistema de ensino, democracia nas universidades. O clima é de protesto e desafio: É proibido proibir. Centenas de estudantes participam da tomada da Reitoria, em Curitiba. Arrancam paralelepípedos do chão e constroem barricadas. No Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná, enfrentam a cavalaria com bolas de gude e estilingues. O busto do ex-reitor da Universidade Federal do Paraná, Flávio Suplicy de Lacerda, responsável pela implantação de um modelo repressivo no ensino superior brasileiro quando ministro da Educação, foi derrubado e arrastado pelas ruas.
Em dezembro de 1968, dezenas de jovens estudante são presos numa reunião promovida pela União Nacional de Estudantes (UNE), no episódio conhecido como Chácara do Alemão. São duramente julgados pela Justiça Militar e condenados a penas que variam entre um e três anos de prisão.
Enquanto os estudantes ainda enchem as ruas com seus grutos de abaixo a ditadura e arroz, feijão, saúde e educação, o Executivo e o Legislativo permanecem indiferentes. Raras são as manifestações de apoio. Isolados, os estudantes procuram os trabalhadores, dispersos depois do desmantelamento dos sindicatos, colocados sob intervenção pelo regime militar.
Com a mesma intensidade dos protestos, a estrura das universidades públicas sofre profundas alterações com a implantação de modelos importados de ensino. Os estudantes protestam: não querem ser transformados em apertadores de parafusos.
A partir do AI-5, editado em 13 de dezembro de 1969, o movimento estudantil se afasta das ruas. A década de 70 é a decada do medo.


