Quem conhece Curitiba de norte a sul sabe que os prédios e espaços históricos ficam lado a lado de construções modernas e atuais. Mas será que a Capital paranaense conserva bem seus monumentos de memória e, ainda, faz um trabalho de divulgação para que a sua população reconheça a importância desses espaços?
  Para a artista visual e doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), Lilian Amaral, Curitiba é uma cidade privilegiada. ‘‘Aqui existe empenho tanto na preservação quanto na difusão de informações sobre os locais históricos. É uma cidade que cativa o cidadão comum a descobrir por conta própria esses elementos de memória através de iniciativas como aquela linha vermelha (linha pinhão/pegadas da memória) ou as placas informativas em frente aos pontos de referência’’, explica.
  Preservar a história de uma cidade por meio de seus monumentos, prédios e praças é importante, mas somente se esses espaços forem vivos e tiverem valor para os habitantes da localidade. Essa é a concepção de pesquisadores do assunto.
  Lilian acredita que a indiferença em relação a esses locais é mais prejudicial do que a depredação. ‘‘O espaço urbano que não tem importância para sua população torna-se invisível. Ou quem não conhece o porquê daquele elemento estar ali, pode sentir-se pouco confortável com ele. A indiferença é resultado do desconhecimento’’, justifica.
  Para mudar esse paradigma, a pesquisadora sugere a conscientização da população, especialmente em idade escolar, com disciplinas de educação patrimonial, preferencialmente transdisciplinar já que os espaços são referências de história, geografia, literatura, entre outras.
  ‘‘Esse processo de descobrimento não é espontâneo. Ele deve ser provocado para que o cidadão busque conhecer a sua própria cidade, olhando os detalhes, as sombras’’, sugere.
  Tânia Bloomfield, doutoranda da Universidade Federal do Paraná (UFPR) na área de artes, também dá à população local uma grande importância na hora de decidir sobre a revitalização dos espaços históricos.
  ‘‘Acontece de, por trás de um discurso de restaurar uma região para recuperar seu valor histórico, estar um interesse de especulação imobiliária, por exemplo. Às vezes a população não está interessada na mudança, ela gosta do local como está. E vem uma decisão de cima para baixo’’, analisa.
  O processo, chamado ‘‘gentrificação’’ (neologismo que ainda não consta em dicionários de português) ou enobrecimento urbano, é a transformação do espaço urbano, com ou sem intervenção governamental. Moradores tradicionais, que pertencem a classes sociais menos favorecidas, acabam sendo expulsos da região que sofre uma intervenção urbana e tem uma valorização imobiliária.
  Ela cita o caso do Bairro Rebouças, região de grandes galpões, do antigo moinho e fábricas, que passou por um processo de revitalização iniciado pela Prefeitura de Curitiba na gestão Cassio Taniguchi, com objetivo de transformar a região em referência cultural.
  Na época, houve até mudança na lei de zoneamento para atração de equipamentos culturais como casas de shows, bares, galerias, uma universidade e a sede da Fundação Cultural de Curitiba.
  
Meio-termo
  Tânia acredita que Curitiba tem conseguido um equilíbrio entre a preservação do patrimônio e a modernização dos espaços. Havendo o interesse da prefeitura fazer alguma obra de restauração, as duas pesquisadoras concordam que é imprescindível ouvir os moradores da região, bem como as pessoas que convivem com aqueles espaços.
  ‘‘Um exemplo contrário a isso foi o que aconteceu com a Pracinha do Batel. Os moradores da região pediam a preservação da praça, mas decisão da Prefeitura, em nome do interesse comum, prevaleceu’’, comenta Tânia.
  Lilian defende que o cidadão precisa compartilhar a sua experiência individual. Para isso, ele pode manifestar o seu depoimento ou vasculhar álbuns de família.
  Outro papel importante das pessoas é como divulgador da memória de seu bairro, sua cidade. ‘‘Mas, para isso, a informação precisa ser disponibilizada às pessoas.
A cidade precisa ser comunicativa. Não é preciso ‘uma tese’ em frente a cada monumento, apenas o básico para quem se interessar em conhecer melhor aquele espaço’’, explica.

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