Manobras no ar sob comando da terra
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Das 17 horas até o anoitecer, o céu da região Sul de Curitiba vira cenário de exibição e competição de pipas, que são comumente chamadas por aqui de raias. Nos bairros desse lado da cidade, o brinquedo sobreviveu ao surgimento de cinemas, TV, videogames, Internet e outras formas de lazer, e disputa a atenção da garotada até com o ''cultuado'' futebol. Principalmente durante a temporada, ou seja, de agosto a novembro, quando o tempo favorece a formação dos ventos, as pipas viram ''febre''.
Da infância dedicada a aprender todas a manobras com a pipa e também a descobrir como se confecciona uma, os irmãos gêmeos Clefersson e Jefersson de Farias, de 25 anos, direcionaram a paixão pelo brinquedo para os negócios. Há quatro anos, tocam uma loja de pipas e fogos de artifícios, que de tão certo, já planejam mudar do estabelecimento improvisado em frente de casa, no bairro do Pinheirinho, para outro maior e independente, na mesma rua. A proposta é ampliar as vendas.
''Queremos estar com a loja pronta já em janeiro. Não dá mais para ficar em casa. Cresceu, precisamos de mais espaço e profissionalismo'', justifica Clefersson, que monta e vende raias, de todos os tamanhos e cores, e a peixinho, uma versão menor e mais simples, que não alcança tanta altura e foi trazida do Rio de Janeiro, segundo ele, há cerca de nove anos. Os preços das raias variam de acordo com o tamanho e com os acessórios como o compasso - armação onde vai prender a linha -, o rolo de fio e a rabiola, feita com tiras de saco de lixo. Pode custar de R$ 0,30 a R$ 2,50 (uma de 47 centímetros).
''Sem a rabiola a pipa fica girando e não sobe. Se a pipa não tiver as medidas dos lados iguais, ela também não levanta e cai. As manobras a criança aprende com a prática. Existe uma que se chama ''facão'', quando a raia corta o vento para o lado esquerdo ou direito. Quando desce até o chão e sobre rapidamente se chama ''retão''. É igual ao surfe, só que no vento e a gente fica no chão manobrando. Quem sabe empinar bem a raia chamamos de raieiro'', explica Clefersson.
Na loja dos irmãos tem pipas para todos os gostos e praticantes. De times de futebol, super-heróis, desenho animado (Bob Esponja, Shrek, Homem-Aranha), de estilo mais zen ou das tradicionais coloridas. É possível também encomendar uma personalizada. As feitas de seda não duram mais do que dois dias. ''Tem criança que compra cinco ou mais para usar em um dia só'', disse ele. ''Só não incentivo o uso do cerol, por causa disso muita gente olha torto para a pipa. As crianças têm que empinar por lazer, para descontrair, pela adrenalina das manobras, não para ficar caçando as pipas dos outros'', opina ele.
Por mês, a loja dos gêmeos vende 2 mil unidades só da pipa peixinho. Apenas no Bairro Novo e no Pinheirinho, Clefersson conhece 15 estabelecimentos especializados na venda raias, além de panificadoras e mercados. ''Pipa é uma paixão para mim, eu e meu irmão somos viciados mesmo, fazemos isso desde os nove anos. Por isso realizamos vários festivais e campeonatos, ao longo do ano, para incentivar as crianças a soltarem raia'', disse ele, informando que no dia, 2 de dezembro, um amigo promove um festival de pipas em Sítio Cercado. Em caso de chuva, o evento será adiado para o domingo seguinte.
Iniciantes - Para as crianças do 1º ano do Ensino Fundamental, as formas de aprendizagem extrapolam os limites da sala de aula. O conhecimento é reforçado pelo lúdico e experiências sensoriais. Sintonizada com essa particularidades das crianças de seis anos, a Escola Atuação dedica parte do tempo dos pequenos às atividades extra-classe, como uma realizada na Estação Ecológica Vô Caldinus, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba.
Na tarde de sol e céu azul, as crianças passaram boa parte do tempo olhando para o alto, ou melhor, para as pipas que tentavam manobrar no ar. Para muitos, era a primeira experiência. ''É muito difícil, a gente sobe o morro e desce correndo, várias vezes. Só uma vez consegui que a pipa subisse'', conta a garotinha Luiza Chinait, 6 anos, já esbaforida. Ela participava da aula sobre as propriedades do ar, como a fonte de energia para barcos velejarem, fazer balões flutuarem e asa-deltas e pipas voarem.
''Para eles assimilarem o conteúdo é importante ter a experiência, vivenciar aquilo que foi falado em sala de aula. Contamos a história das pipas para eles'', reforça a professora Rosane Silva, 27 anos. O pequeno Bruno Falcão, seis anos, se destacava pela habilidade em fazer as manobras com a pipa. ''A gente precisa do ar para soltar pipa. É só correr, soltar o fio e ficar balançando. É muito divertido'', comemora o menino.


