Manias são mais comuns do que se imagina
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sábado, 05 de novembro de 2005
Alan Maschio<br>Reportagem Local 
Mário Prata tem. Jorge Amado tem. David Beckham tem. Lula também tem. Severino Cavalcanti e José Dirceu não têm mais, mas tinham. Por motivos diferentes, Albert Einstein tinha. Eu tenho. Você tem. Não, meu caro leitor, não estamos falando de gosto ou de partes íntimas da anatomia humana. A reportagem que se segue trata de manias, hábitos corriqueiros e, na grande maioria das vezes, inúteis, que acompanham a humanidade desde o início dos tempos, desde que o mundo foi chamado pela primeira vez de mundo.
Geralmente estranhas aos olhos alheios, mas imprescindíveis na vida de quem as possui, as manias são aqueles hábitos que não interferem em nada na rotina pessoal ou profissional, mas que ninguém abandona. Coçar a orelha, fumar depois do almoço, forrar o piso do carro com jornal, arrumar tapetes e alinhar quadros são só algumas delas, para citar as que são socialmente aceitáveis.
Outras, no entanto, exigem um espaço reservado para a prática, mas nem por isso são menos comuns, como cantar durante o banho, dar descarga antes e depois de fazer xixi, limpar o ouvido com a chave do carro ou com a tampa da caneta... Estas, talvez, nem sejam tão recomendáveis assim.
Enumerar quantidades e variantes para as manias não é tarefa das mais fáceis. Elas variam de acordo com o sexo, com a idade, com a condição financeira e social, com a experiência. Só o que é inegável, nesta questão, é que todo mundo tem uma. Ela vai ser chamada de loucura, se você for pobre. E vai ser chamada de excentricidade, se você for rico.
Tarefa igualmente difícil é tentar separar em grupos os praticantes de determinadas manias. O que se constata com facilidade, porém, são as diferentes manias encontradas entre os homens e mulheres. Homem, como se sabe, tem mania de bagunça. Mulher claro , de arrumação e limpeza. Muitas vezes, ao extremo.
As companheiras de casa da profissional de marketing Giseli Cristina Caldeira, por exemplo, que o digam. A jovem não só tem a dita cuja mania de limpeza, como fez questão de elaborá-la. Não consigo ver louça suja na cozinha. Me dá faniquito se eu não lavo. Mas antes de começar, tenho que organizar tudo dentro da pia... separo os talheres, copos, pratos e o restante, e lavo nesta ordem. E as panelas devem estar uma dentro da outra!, detalha.
Com 24 anos, Giseli acredita que tal mania tenha aparecido quando ela se mudou para Londrina, há cinco anos. A obrigação de limpar a casa sem o apoio dos pais fez com que ela desenvolvesse toda a técnica descrita para a hora das atividades diárias. Mas não é só isso: a jovem tem outros hábitos igualmente peculiares, que acredita ter adquirido durante a infância, quando ajudava os pais em um buffet infantil.
Minha obrigação era colocar as toalhas sobre as mesas. Minha mãe sempre exigia que eu nunca esquecesse de verificar se eu as tinha colocado do lado correto. Desde então, eu verifico todas as toalhas dos lugares aonde estou, para saber se elas não estão ao contrário, conta, às gargalhadas.
Mas as manias de Giseli não param por aí. Alguns hábitos, digamos, mais íntimos, são permeados por ações tão curiosas que fica impossível ouvir as histórias da publicitária sem cair na risada. Quando vai ao banheiro, por exemplo, Giseli não faz xixi enquanto não pegar o papel higiênico nas mãos. Fico com medo de estar em um lugar que não tenha papel. Se eu não pego, demoro muito para aliviar, né?
A também publicitária Fernanda Martins Gomes, 28 anos, cultiva quase os mesmos hábitos da colega de profissão. Das duas horas semanais que ela gasta no supermercado, pelo menos uma é dedicada à seção de produtos de limpeza.
No armário de casa, ela coleciona vidros de água sanitária, desinfetantes, desengordurantes sem aroma, com aroma de limão, bactericidas com cloro, sem cloro, com bolhas de oxigênio e todas as substâncias ativas que o leitor possa imaginar... Acho que adquiri este hábito com minha mãe, que também tinha mania de limpeza, conta.
Organização também é o forte de Fernanda. Pudera, já que as manias de organização e limpeza, geralmente, caminham juntas. Louça, por exemplo, tem que ser lavada, independente se são duas da tarde ou uma da manhã. E a cama, tem que estar, sempre, impreterivelmente arrumada. Detalhe: mesmo se o noivo ainda está sobre ela. Não consigo ver o lençol desarrumado!, admite.
Geralmente associadas à tentativa de aliviar algum tipo de pressão, algumas manias são mais facilmente relacionadas à ansiedade, como o hábito de roer unhas. A relações públicas Fernanda Guerra, 32 anos, reforça esta teoria. Fazia principalmente quando era mais nova. Eu sou muito ansiosa, e a impressão quando se rói unhas é a de um alívio momentâ-neo, tenta explicar.
O hábito, porém, já colocou Fernanda em situações constrangedoras. Ela já foi modelo e até se viu obrigada a recusar trabalhos por causa da condição das unhas depois de aliviar a ansiedade. Quando eu sabia que iria participar de desfiles de jóias ou fazer fotos das mãos, me obrigava a parar, conta. Tive que passar a fazer as unhas toda semana para não roê-las, completa.
A colocação de aparelho dentário até a ajudou a tentar se livrar do hábito. Mas a solução durou pouco tempo. Com o aparelho, tinha dificuldade para roer as unhas. Mas logo desenvolvi uma técnica e passei a comer a ponta dos dedos de novo, lembra.
Mas a relações públicas também tem manias menos agressivas. Desde que iniciou a vida social, Fernanda cultiva o hábito de dormir com um copo dágua ao lado da cama, para o caso de acordar com sede. Desse jeito não preciso levantar para beber água, se for preciso.
Às vezes, nem bebo a água, mas se o copo não estiver do lado da minha cama, eu não durmo, garante. O hábito, inclusive, virou motivo de chacota no trabalho. Fernanda coleciona copos dágua na mesa de serviço. Às vezes, me pego rodeada com três ou quatro copos. Vai entender...


