Mais humanos (para Vanessa Buniowski)
Na vida, vivemos às vezes emoções e sensações indescritíveis. Quando tentamos escrevê-las no papel, não saem de jeito nenhum. Ou, se saem, não é do jeito que queremos.
Por exemplo, como descrever a emoção de ganhar algo desejado há muitos anos? Ou de ser eleito para algum cargo conquistado a duras penas? Ou o ''nó'' na garganta pela emoção de uma paixão ou da morte de um ente querido? Tenho vivido algumas dessas emoções, e não consigo transpor para o papel a alegria ou a dor do momento. Aliás, às vezes sequer consigo desenvolver um pensamento coerente que me leve a compreender o fato. Em geral, o pensamento fica fixo num ponto, e tudo corre ao seu redor, como dentro de um círculo, sem uma capacidade maior de reflexão.
Nos últimos dois anos, tenho vivido algumas emoções que jamais imaginei viver. Algumas delas já relatei, como a emoção de um acidente de automóvel e a sensação que tive naquele momento. Também vivi e mal escrevi, com certa dose de humor, a sensação de sofrer uma cirurgia cardíaca. Vivo e escrevo sobre vários momentos políticos, dos quais sou também, às vezes, um dos protagonistas. Porém, escrever sobre o protagonismo da relação entre vida e morte, e sobre a perda de uma pessoa querida, não é possível.
Como escrever sobre a morte de uma jovem que tinha a maioria das coisas que outras de sua idade não têm: amor, compreensão e alguns bens materiais? Nos dois momentos em que escrevi sobre a morte, o do acidente e o da cirurgia, o risco de perder a vida se aproximou de mim de maneira inesperada. Digo inesperada porque há certa lógica: em momentos de doença e de velhice, a morte pode até ser algo esperado. Fora destes dois casos, nunca estamos preparados.
Sorrateiramente, a morte veio passear em nossa casa. Levou-nos uma das pessoas mais queridas e amadas que tínhamos. Arrancou-nos a nossa filha, ainda jovem e sem sequer experimentar a vida em sua plenitude: dores, sofrimentos, alegrias, amores, sonhos, esperanças...
Por quê? São muitas as perguntas. Resposta, nenhuma. Por mais que me debruce sobre todas as filosofias e religiões, não encontro a explicação. A emoção e a dor são tão fortes que não consigo escrever. Como diz a minha mulher, depois deste fato, somos dois bonecos de pano.
Só uma coisa sei: cada fato que vivi, cada emoção pela qual passei, mudou a minha vida. Esta perda, além de mudá-la, fará com que a minha vida não seja nunca mais a mesma. Esse fato não muda só o futuro, muda também a maneira como enxergarei o passado. Filha, tenha a certeza, você nos faz falta, e nos fará mais humanos.
Dr. Rosinha, médico pediatra e deputado federal pelo PT-PR





