Mais espiritual, menos social
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
A partir do ano que vem, os noivos que casarem em uma das 127 paróquias da Arquidiocese de Curitiba vão ter que se contentar com uma cerimônia bem mais simples do que os casamentos feitos atualmente, com menos ornamentação, sem a presença dos amigos e parentes mais chegados, como padrinhos, junto ao altar e sem aquela música romântica que marcou a vida do casal.
São essas as principais determinações da Arquidiocese de Curitiba, que baixou um conjunto de normas que passam a regular a celebração do matrimônio a partir do ano que vem. A Igreja garante que as regras não mudam em nada o rito do matrimônio, ao contrário, que só vêm valorizá-lo. Noivos que estão prestes a se casar e profissionais envolvidos na realização da cerimônia, no entanto, não gostaram nem um pouco das mudanças.
''A gente sonha em fazer o casamento de um jeito, como você sempre vê e gosta, mas quando chega a tua vez, ele está cheio de cortes'', diz a dentista Susane Corazza, 29 anos, que diz que ficou ''desestimulada'' para fazer a cerimônia na igreja católica. De casamento marcado para 1º de março de 2008 com o médico Gustavo Fernando Binder, ela conta que já tinha tudo planejado.
Para a entrada na igreja São Vicente, localizada no centro de Curitiba, ela convidou dois sobrinhos e duas meninas, filhas de amigos. Como padrinhos, foram convidados 12 casais, seis para cada um dos noivos. ''Eu já convidei, eles já estão na expectativa de participar da entrada da igreja conosco'', lamenta ela, que terá que se restringir a ter apenas dois casais de testemunhas na igreja, e que não poderão ficar junto ao altar. As crianças também terão que ser apenas duas.
Por causa das mudanças, Susane chegou a pensar em desistir da cerimônia católica e ter apenas uma benção, dada por um pastor, no mesmo local da festa. ''Só não vou fazer isso porque meus pais não iriam gostar, eles são bem praticantes'', diz. Mas foi essa a decisão da futura cunhada, a também dentista Cláudia Patrícia Binder, que casa em novembro deste ano. Ela queria fazer o casamento em uma chácara, mas como não conseguiu nenhum padre que fizesse a cerimônia fora da igreja, optou por chamar um pastor da Igreja Presbiteriana. A decisão de realizar o casamento só no ''Templo Cristão'' é reiterada no documento com as novas normas da Arquidiocese de Curitiba.
Já os noivos Eliane Vitória Lanzarini e Freddy Zapata, apesar de não terem gostado das restrições, estão mais conformados. ''Os padrinhos fazem parte da festa, são pessoas que caminharam com a gente. Agora vou ter que mudar, tudo vai ter que ser mais simples'', afirma Eliane, que casa dia 10 de maio do ano que vem.
Os 10 casais de padrinhos, cinco para para um dos noivos, terão seu momento de destaque na cerimônia social do casamento. A idéia é da consultora de casamentos Dulce Menezes, responsável pela organização do casamento de Eliane e Freddy. ''Se trabalhamos na igreja, temos que seguir suas normas. As mudanças não vão acabar com o glamour do casamento'', afirma ela, que realiza cerca de 12 casamentos por mês.
Ela conta que, a princípio, muitos noivos assustaram-se com as mudanças, mas eles já estão vendo que, mesmo com as limitações, é possível manter o ''charme'' da ocasião. Para compensar a retirada de destaque aos padrinhos na igreja, por exemplo, ela sugere que seja feito algo diferenciado na recepção, a música preferida do casal, que não poderá ser tocada na igreja, também pode ter seu espaço na festa.
Dulce concorda que há exageros em alguns casos (casamento com 12 padrinhos de cada lado, entrada com duração de mais de 10 minutos, rock na igreja...), mas acha que muitos pontos ainda podem ser discutidos e amadurecidos em acordo entre as partes. Entre as músicas brasileiras preferidas em casamentos, conta, estão alguns clássicos da MPB, como ''Eu sei que vou te amar'', ''Como é grande o meu amor por você'' e ''Fascinação''.
Rodrigo Roza, da Companhia Curitibana de Eventos, por sua vez, acha que agora será preciso ''mais criatividade'' na hora de produzir um casamento. Para ele, no entanto, a igreja católica pode ser a mais prejudicada com as limitações. ''A igreja não pode só ditar regras, porque esse é um dia de sonho dos noivos. Ela corre o risco de perder casamentos para outras igrejas'', avalia.
Mesma opinião tem o músico José Aparecido Pereira, da JR Harmonia Musical, que atua há 12 anos em Curitiba. ''Se a igreja libera o beijo do casal, então porque não pode tocar uma música romântica?'', questiona ele, que acha que a limitação do número de músicas vai ''empobrecer'' a cerimônia. Para ele, as igrejas não poderiam ter tantas exigências, uma vez que os noivos pagam pelo horário do casamento.
SAIBA MAIS
Momentos que devem contar do rito do Sacramento do Matrimônio
- Diálogo antes do consentimento, em que o padre interroga os noivos quanto à sua liberdade, fidelidade e educação cristã dos filhos.
- Consentimento mútuo dos cônjuges, que é a fórmula do sacramento.
- Aceitação do consentimento pelo padre
- Bênção e entrega das alianças


