Para muitas pessoas, o restaurante Madalosso é praticamente sinônimo de Santa Felicidade, o tradicional bairro italiano de Curitiba. São mais de 40 anos de história, resumidos em um livro recém-lançado, ‘‘Entre Quatro Panelas’’, de Ricardo Hubner.
  Em entrevista à Folha, Flora Madalosso Bertolli, fundadora do restaurante, comenta alguns detalhes dessa trajetória. ‘‘Minha família veio de Caxias do Sul (RS) para Curitiba em 1949. Meu pai plantava uvas, fazia um pouco de vinho... Aqui, em Santa Felicidade, ele plantou 30 mil pés na área onde hoje está o Novo Madalosso’’, lembra dona Flora.
  ‘‘Comecei o restaurante em 1963 com meu marido, Admar Bertolli. Nós compramos o restaurante Flórida (que ficava em frente à plantação do pai de dona Flora), que só tinha 24 lugares’’, explica a empresária. Eram tempos difíceis para a família.
  ‘‘Os parreirais não iam bem. Meu pai estava meio desesperado, porque o clima não era bom para a plantação. Além disso, minha mãe estava com depressão. Foi um período complicado. Meu pai vendeu um terreno e emprestou parte desse dinheiro para começarmos o restaurante. Levei um irmão de 15 anos para nos ajudar’’, relata dona Flora.
  A empresária afirma que no início da década de 1960 Santa Felicidade não tinha a mesma fama de hoje. O primeiro desafio para emplacar o novo restaurante era convencer as pessoas a se locomoverem até o bairro, distante para os padrões da época. ‘‘Meu marido saía distribuindo cartõezinhos. Não era todo mundo que vinha para Santa Felicidade. Era uma época muito diferente. Quem se deslocava eram os italianos do bairro, que iam de carrocinha para o Centro para vender o que produziam’’, lembra dona Flora.
  ‘‘Eu buscava caprichar, para o pessoal fazer o boca-a-boca do restaurante. Com três meses, fizemos a primeira reforma. De 24, fomos para 100 lugares’’, conta a empresária, que salienta: ‘‘O frango com polenta desde o início foi o carro-chefe do restaurante’’.
  O gerente geral do Novo Madalosso, Ernani Ribas do Valle, foi o primeiro garçom contratado do restaurante Madalosso. ‘‘Comecei aqui com 15 anos, em 1965. Eu cortava lenha, matava frangos e servia o salão’’, diz o gerente. Com os anos, a expansão do Madalosso se acentuou. Algum tempo após a primeira reforma, outra foi realizada. No final da década de 1960, a parte da sociedade que cabia ao pai de dona Flora foi passada para dois irmãos dela, Carlos e Severino.
  Como a clientela aumentava cada vez mais e o espaço do velho Madalosso não comportava mais expansões, o jeito foi construir um segundo restaurante. Em abril de 1970, o Novo Madalosso abriu as portas. A unidade foi construída no terreno onde ficavam os parreirais do pai de dona Flora. ‘‘Inauguramos o Novo Madalosso com dois salões, com a pretensão de servir 400 refeições por domingo’’, diz a empresária.
  Na década de 1970, a família realizou um intenso trabalho de divulgação em várias regiões do Brasil, através de participações em feiras gastronômicas e contatos com agências de turismo. ‘‘Eu e o Carlos fomos para São Paulo sem conhecer a cidade e nenhuma agência de turismo. Entrei num hotelzinho e arranquei as páginas da lista telefônica que tinham telefones de agências. Depois, passamos pelo interior de São Paulo’’, lembra Ernani.
  A astúcia era fundamental nesse trabalho de divulgação: o gerente se recorda da estratégia que
adotou para chamar atenção para o Madalosso numa feira em Brasília. ‘‘Tínhamos a barraquinha mais humilde. Aí, fizemos o seguinte: na véspera do início da feira, oferecemos uma rodada de frango com polenta para a imprensa. No dia seguinte, o frango com polenta estava em todos os jornais’’, relata Ernani, rindo.
  Com as expansões que se seguiram, o Novo Madalosso transformou-se no gigante que é hoje: somados, os oito salões do restaurante são capazes de abrigar 4.200 pessoas. Dona Flora afirma que o recorde de movimento no local foi atingido no feriado de 12 de outubro de 1984: naquele dia, aproximadamente seis mil pessoas passaram pelo restaurante, grande parte turistas, que vieram em
154 ônibus.
  Dona Flora cita que em 1995, 96 e 97 o Novo Madalosso apareceu no Guinness Book como o segundo maior restaurante do mundo, em número de lugares e metros quadrados construídos, atrás apenas de um estabelecimento da Tailândia.
  Muitos dos clientes que mantêm os números impressionantes do Madalosso são fiéis. O advogado Ary Nogueira da Silva relata que freqüenta o restaurante há cerca de 30 anos. ‘‘Quando eu ainda morava no interior (em Rolândia), quando vinha a Curitiba sempre comia no Madalosso. Depois que me mudei para cá, mantive o hábito’’, lembra o advogado.
  A esposa de Ary, Liddy Siqueira da Silva, elogia o restaurante e cita as vantagens de se manter ‘‘fiel’’ ao Madalosso. ‘‘Nós já temos até um garçom ‘fixo’, que conhece as nossas preferências. Gostamos de tudo aqui: a comida, o atendimento, a gentileza dos gerentes’’, afirma.
  ‘‘O segredo é honestidade e trabalho’’, aponta dona Flora. ‘‘Sempre procurei passar para
as pessoas que trabalham conosco a mensagem de
que é preciso ser honesto em tudo, tanto com o varredor quanto com o governador’’.

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