A primeira coisa que chama a atenção de quem entra na favela do Parolin, em Curitiba, é a precariedade das habitações. São comuns casas com madeira apodrecendo, paredes inclinadas, ameaçando desabar. O que se sente a seguir é o mau cheiro. Proveniente do rio que corta o bairro e que é alvo do despejo de lixo e entulho.
''Com chuva, o rio já subiu muitas vezes. Faz tempo que não dá uma enchente forte, mas a gente ainda tem medo. O que incomoda mais é o cheiro. Há uns 15 dias limparam o rio. É só ver como está agora, sujo de novo'', afirma o vigilante Jairo Ferreira do Amaral, que mora no Parolin com a mulher e um filho, numa das casas da favela que ficam na beira do rio.
A catadora de papel Neuza Vieira de Lima é outra ''vizinha'' do curso d'água. Diz que já morou ainda mais perto do rio. ''Eu morava bem na beira. Aí a casa foi puxada um pouco para cima'', explica Neuza. Numa residência composta de um barraco e um quartinho separado, moram Neuza e sete filhos. O barraco está cheio de cupins e as paredes estão inclinadas. ''O Parolin é ótimo, só falta ter casa boa'', diz a catadora.
Na região da chamada Capital Modelo ou Capital Social, há muitas pessoas vivendo em situação parecida com a da família de Neuza Vieira. O Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) aponta que os últimos dados oficiais abrangentes sobre favelas colhidos com a metodologia adequada estão presentes no Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o Censo, no início da década havia pouco mais de 170 mil pessoas morando em favelas na Mesorregião Metropolitana de Curitiba, porção do Estado que congrega a RMC, o Litoral e alguns municípios vizinhos.
A professora Gislene Pereira, chefe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que o estágio inicial da formação de favelas é a ocupação promovida por populações que não têm condições de acesso à moradia de forma regular. ''São pessoas que não têm como comprovar renda, ou não têm renda regular, ou não têm renda alguma e dessa forma não têm acesso à moradia formal'', diz a professora.
De acordo com Gislene, essa ocupação de forma desordenada gera vários transtornos: estabelecimento de moradias em lugares inapropriados (o que muitas vezes provoca danos ambientais), violência, falta de acesso à infra-estrutura básica, como tratamento de esgoto, e outras privações. ''Pela moradia não existir formalmente, quem mora nessas áreas é quase um 'não-cidadão'. A pessoa não recebe correspondência, não tem como comprovar endereço'', argumenta.
A professora aponta que em todo o Brasil faltam políticas habitacionais claras e que as ações de urbanização ou realocação são apenas pontuais. ''Uma política habitacional efetiva implicaria intervir no mercado imobiliário, para controlar os preços e a população ter acesso à terra, e também são necessários programas de geração de emprego e renda'', diz Gislene.
Recentemente, representantes do Ministério Público, da Prefeitura de Curitiba, do Governo do Estado e de outras entidades iniciaram um ciclo de reuniões para discutir com a comunidade da Vila Torres (localizada na capital) melhorias na região. Foram desenvolvidas ações de vários órgãos públicos no local, um dos mais pobres de Curitiba. Segundo o promotor Saint-Clair Honorato dos Santos, a idéia é fazer trabalho semelhante junto às comunidades de outras áreas de risco da RMC. ''Vamos detectar os locais mais carentes para ver o que pode ser feito'', aponta o promotor.

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