São Paulo - A maioria dos casos de injúria e difamação online não chega aos registros policiais. São as agressões conhecidas como cyberbullying versão moderna do bullying, que não tem tradução, mas é velho conhecido de estudantes brasileiros.
Trata-se de uma forma de agressão, física ou verbal, que intimida e humilha. ''Antigamente, as ofensas vinham no máximo num trote telefônico, que ficava entre duas pessoas. Agora, ficam abertas a todo mundo'', diz o chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa de Misericórdia do Rio, Fábio Barbirato. ''Tenho paciente com histórico de tentativa de suicídio, vítima de um site onde, além de falarem mal, puseram montagens dela sem roupa.''
A psicóloga Luciana Ruffo, colaboradora do Núcleo de Pesquisa em Psicologia e Informática da PUC-SP, confirma: ''O que antes existia dentro de um colégio, com bilhetinhos, agora está aberto a todos na rede''.
Outra agravante da internet é favorecer o anonimato. Muita gente se sente protegida para ameaçar, por meio de mensagens sucessivas e-mail ou celular , roubo de senha do MSN e criação de comunidades. Ganha apoio e enche páginas com discussões do tipo: Como você mataria a gorda? Quem é seu alvo preferido?
''A rigor, é criminosa qualquer ofensa moral, que caia na definição de injúria (ataca a honra e o valor que a pessoa tem de si mesma) ou difamação (imputa fato desabonador à pessoa e atinge o conceito que outros fazem dela)'', diz a promotora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Infância e da Juventude Martha de Toledo Machado, que escreveu com o psicólogo Fernando Falabella Tavares de Lima a tese ''Bullying Reflexões para a Construção de Indicadores de Atuação das Promotorias de Justiça da Infância e da Juventude''. ''Mas a situação do adolescente em relação a isso é diferente. É próprio da idade aprender transgredindo regras. Querer tratar o problema com intervenção judicial será não só injusto como irracional.''
Já houve casos, diz ela, que levaram a medidas socioeducativas leves, mas nenhum à internação. Numa época, porém, em que milhares de jovens passam o dia na internet, Martha acha que a sociedade não pode se omitir diante da questão. Mesmo porque já começam a aparecer casos graves: um menino gordinho foi vítima de um blog chamado Vamos Bater no Repolho, que não ficou só nas ameaças. Uma menina mudou três vezes de escola para escapar da perseguição de colegas. (L.G./A.E.)

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