Kraw PenasA jornalista Marisa Valério é uma das ‘‘avós virtuais’’ criadas pela mania do Tamagoshi: tem que cuidar da engenhoca enquanto a filha está na escolaComo o Godzilla, a Gamera e outros monstrengos criados pelos japoneses para o cinema e tv, uma nova criatura nipônica está conquistando o mundo: o brinquedo eletrônico Tamagoshi. Conhecido como ‘‘o amiguinho virtual’’, a engenhoca é uma espécie de vídeo game de bolso que se comporta como se tivesse vida. A imagem digital que ocupa o visor de cristal líquido nasce, cresce e morre. Por meio dos botões, o dono tem que alimentá-lo, colocá-lo para dormir, brincar com ele e tomar ainda uma série de outros cuidados.
Caso estas necessidades vitais não sejam cumpridas, o Tamagoshi ‘‘morre’’ - no visor, aparece a imagem do bichinho com uma auréola na cabeça e uma cruz ao lado. Este óbito não é irreversível. O jogo pode ser reiniciado, só que as crianças ficam tristes com a perda. É esta característica do brinquedo que vem criando uma série de problemas para os pais e tem feito a novidade merecer o rótulo de um grande ‘‘abacaxi’’. Além dos R$ 30,00 necessários para comprar um Tamagoshi nas lojas de brinquedo e importadoras, se gasta muita paciência.
Para não ver seu amigo virtual morrer, as crianças têm que atender suas vontades. O problema é que estas vontades são frequentes e ele faz manha como um filho real, ‘‘chorando’’ (um apito eletrônico funciona como os berros de um bebê).
Esta exigência de atenção acabou tornando o joguinho proibido em muitas escolas (leia texto ao lado). A medida, útil para manter os alunos concentrados, criou um fenômeno paralelo. Obrigadas a cuidar dos pimpolhos eletrônicos dos filhos, enquanto estes estão na aula, muitas mães se transformaram - a contragosto - em avós virtuais.
A jornalista Marisa Boroni Valério integra esta nova geração de avós. Sua filha de 6 anos, Isadora, queria um animal de estimação. Os limites impostos pelo apartamento onde a família mora não permitiu a aquisição de um cachorro e a saída acabou sendo um Tamagoshi.
Isadora trata o brinquedo como se fosse um filho. ‘‘É um brinquedo legal porque tem muita coisa para fazer com ele’’, conta. ‘‘Só acho uma pena não poder levar para a aula’’. A proibição faz com que a mãe e o pai tenham que se alternar como babás da geringonça.

Kraw Penas‘‘É legal pois tem muita coisa para fazer com ele’’.
Isadora, 6 anosAo cuidar do Tamagoshi no trabalho, Marisa já passou por situações engraçadas, como a de ter que parar algo que estava fazendo para atender os choromingos do brinquedo. ‘‘Um dia fui chamada na sala do meu chefe e, esquecendo que estava com o Tamagoshi pendurado no pescoço, quase entrei lá daquele jeito’’, lembra.
‘‘O problema é que as vezes nada está bom: você dá água e comida, arruma a temperatura e até brinca com a criatura (o brinquedo também tem um joguinho eletrônico) e ele continua mostrando uma cara triste no visor’’, conclui Marisa.
Mãe de uma menina de 10 anos e avó eletrônica de um Tamagoshi, Marialda Gonçalves Pereira Beghetto, também jornalista, é uma avó eletrônica das menos conformadas. ‘‘Não posso nem ouvir falar desses bichos: quem inventou isso com certeza não tem filhos. Eu era contra, mas na escola todo munto tinha e não tive como não dar para minha filha’’, resume. O ‘‘netinho’’ virtual de Marialda já foi levado até para a praia. ‘‘Foi ridículo: nós na areia, com o maior sol, e tendo que se preocupar em cuidar do brinquedo’’, conta.
De manhã, quando a filha, Helena, está na aula, Marialda também tem que levá-lo para o trabalho, o que já fez com que tivesse que atender seus pedidos no meio do expediente. O sofrimento também não dá folga nos fins de semana. ‘‘Uma vez estávamos indo para um aniversário e, quando chegamos na porta, tivemos que voltar pois a Helena tinha esquecido o Tamagoshi em casa’’.
Enquanto a moda não passa e as crianças não enjoam, os pais que não conseguiram barrar a entrada do terrível invasor oriental em casa podem se conformar com um consolo: o ciclo de vida dos Tamagoshi dura em média um mês. Antes que a brincadeira seja reiniciada e um novo amiguinho virtual comece a nascer no visor da engenhoca, dá tempo de desligá-la.

mockup