Mães alimentadas têm filhos desnutridos
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
Adriana Dias Lopes<br>Agência Estado 
São Paulo- A maioria das crianças desnutridas tem mães que não enfrentam o mesmo problema. Essa foi a conclusão de estudo inédito realizado em São Paulo e que acaba de se transformar em livro (''Vínculo Mãe/Filho'', editora Revinter, 171 págs., R$ 45). Durante 14 anos, o pediatra Fernando José de Nóbrega, coordenador do Programa Einstein de Nutrição na Comunidade de Paraisópolis, comandou uma pesquisa também com o Ambulatório de Triagem Pediátrica do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo e o Centro de Referência da Saúde da Mulher e de Nutrição, Alimentação e Desenvolvimento Infantil (CRSMNADI), órgão da Secretaria de Saúde de São Paulo.
O trabalho revelou que 53% das mães das crianças desnutridas tinham peso normal. Em seguida, vieram as mães com sobrepeso (33,3%). Por último, as desnutridas (13,7%). Na residência das 2.131 crianças observadas no estudo, a falta de comida não era problema. O fato é que os alimentos não eram oferecidos adequadamente às crianças.
De acordo com o trabalho, a falta de higiene das mães durante o preparo dos alimentos era um ponto em comum entre a maioria. ''A criança que consome alimentos contaminados corre muito mais risco que o adulto de sofrer infecções porque não têm defesas'', explica. ''E quando essas infecções são sucessivas, a possibilidade de as crianças ficarem desnutridas é enorme, já que provocam vômitos e diarréias.''
A dona de casa Maria Antero de Oliveira passou por isso. Em apenas um mês, viu a filha Maria Daniela, de 2 anos, perder dois quilos por conta de uma infecção de origem alimentar. ''A diarréia da minha filha não parava. Levei ela ao posto de saúde e lá me disseram que estava desnutrida. Nunca faltou comida em casa.''
Depois da notícia recebida no posto, Maria Antero procurou o ambulatório do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis, perto de onde mora. O lugar conta com um programa de nutrição, que inclui aulas sobre higienização dos alimentos. ''Fui lá para pedir ajuda para a desnutrição da minha filha e descobri que não higienizava as verduras. Só limpava com água. Achava que o cloro podia intoxicar a Daniela.''
A segunda causa da diferença nutricional apontada pelo estudo foram alterações no vínculo mãe e filho. ''Quando o vínculo falha, a criança sofre com desatenção da mãe e não é alimentada direito por ela'', explica Nóbrega. Mas a mãe não é ré. É vítima. É como se sua capacidade de identificar as solicitações do filho e respondê-las de maneira adequada ficasse comprometida por razões biológicas ou psíquicas. Há maneiras práticas de identificar as falhas. Nóbrega e sua equipe criaram 16 indicadores para verificar. Alguns exemplos: amamentação insatisfatória, insatisfação conjugal, profissional, falta de apoio familiar na gestação.
No último dia 16, pesquisa do IBGE revelou que nas últimas três décadas o Brasil reduziu à metade o índice de desnutrição entre os adultos. Ao mesmo tempo, porém, os brasileiros estão cada vez mais gordos: em 30 anos, a proporção de obesos passou de 5,3% para 11%. O presidente Lula contestou com veemência essas informações.


