Cada vez mais cedo as crianças estão deixando de acreditar na fantasia do bom velhinho de roupa vermelha e barba branca da noite de Natal. Isso deve-se, em grande parte, ao excessivo apelo comercial que a data tem adquirido. No entanto, todas as crianças passam por uma fase de incerteza: acreditar ou não no Papai Noel? A psicóloga Kellen Martins Escaraboto lembra que a nossa sociedade é multicultural e nem todas as crianças comemoram o Natal. No entanto, segundo ela, todas as crianças entram no contexto das fantasias de infância, como o Papai Noel e o coelho da Páscoa. Por esse motivo, cada família deve agir conforme seus próprios valores. Mas Kellen alerta que os pais devem tomar cuidado com a comercialização do Natal. ‘‘O objetivo principal do Natal não é comercial, e sim a vivência em família e a partilha representada pela distruibuição de presentes’’, esclarece. Dentro desse contexto, ela lembra que nem todos os presentes precisam ser comprados, eles podem ser feitos pela própria pessoa, como cartas e desenhos. ‘‘O importante é que os pais passem a mensagem de que amam os filhos e de união familiar nesse momento’’, reforça Kellen, contando que esse significado vai repercutir durante a vida.
Segundo a psicóloga, a fantasia é importante na trajetória da criança, o alicerce para o desenvolvimento de uma pessoa criativa, capaz de estipular metas e planos. ‘‘Com cerca de 2 anos a criança já começa a imaginar, criar e sonhar. Mas essa característica não é intrínseca do ser humano, ela precisa ser estimulada dentro do contexto familiar’’, destaca.
Por volta dos 6 ou 7 anos de idade, as crianças começam a questionar a fantasia. De acordo com a Kellen, isso é chamado de conflito cognitivo, o que é muito saudável. ‘‘A criança precisa passar por esse processo, pois vai se deparar com um problema e terá que encontrar sozinha a solução.’’ Para a psicóloga, é a própria criança que deve quebrar com a fantasia. ‘‘Se a criança perguntar porque os presentes já estão nas lojas uma vez que quem os produz e entrega é o Papai Noel, os pais não devem dar respostas. Eles devem questionar a criança sobre o que ela acredita, afirmando, por exemplo: ‘Nossa, é verdade, não tinha pensado nisso. Por que você acha que eles já estão aqui?’’’. Dessa forma, a criança vai poder criar a sua própria fantasia.
Julia, de 9 anos acaba de passar por essa fase de conflitos. Segundo a mãe, Kátia Iziliano Pereira, apesar de dizer que não acredita mais em Papai Noel, a menina faz questão de incentivar a magia do Natal para a irmã mais nova, Luiza, de apenas 2 anos. ‘‘Ela sabe que nós compramos e entregamos os presentes, mas o Papai Noel ainda é o símbolo do Natal para ela. Julia monta a árvore de Natal comigo e escreve duas cartinhas para o Papai Noel, a dela e a da irmã pequena’’, conta a mãe.
Kátia lembra que a filha começou a questionar a existência do Papai Noel aos 7 anos, quando se deu conta de que os próprios pais compravam os presentes. ‘‘Quando isso aconteceu eu disse para ela que nós comprávamos o presente, mas quem fazia era o Papai Noel. Mas ela só acreditou nisso por mais um ano’’, lembra. Foi então que a mãe resolveu contar para Julia toda a história e a tradição do Natal.
Segundo a psicóloga Kellen Escaraboto, não existe uma idade limite para que a criança deixe de acreditar em Papai Noel, Coelho da Páscoa ou em qualquer outra fantasia de infância. Ela orienta que os pais não devem se preocupar com isso, pois a criança vai indicar quando está pronta para quebrar a fantasia.‘‘O quadro só se torna preocupante se estiver associado a outros comportamentos infantilizados, como fala típica de neném e necessidade de usar fraldas em idade mais avançada’’, explica.

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