A plaquinha na janela de uma residência, no bairro de Sítio Cercado, indica a prestação de serviço: ''Cuido de Crianças''. A casa, em questão, fica em frente a uma creche municipal e pertence a R.O., de 48 anos. A professora desempregada adotou o ofício para manter sua família, há quatro anos. Dois cômodos da residência, um quarto com cama de casal e televisão e uma copa-cozinha, são reservados para 16 crianças transitarem. Quando as temperaturas estão mais elevadas, a garotada brinca também na área externa.
''Aqui é como se elas estivessem na casa da avó. Dou um suporte para as mães. Faço almoço, com feijão, arroz e carne moída, sirvo de lanche pão, suco e bolachinha. Cuido deles como criei minhas netas'', disse R.O., uma mãe-crecheira que cobra em média R$ 120 por mês para acolher e alimentar uma criança. ''Mas sempre que posso, dou um jeitinho. Quando são dois filhos, cobro R$ 150'', informou ela, reforçando que o trabalho é sua única fonte de renda.
No armário da sala, R.O. improvisou um local para guardar as roupas das crianças e comprou um cabide para pendurar as mochilas da escola.''Não sobra dinheiro para que eu possa fazer adaptações. Não modifiquei nada, é tudo improvisado. Os brinquedos são deles mesmos, que passam o dia brincando sozinhos'', conta R.O., que cuida de crianças em período integral e até noturno. ''Depende da necessidade da mãe. Aqui tem algumas que são diaristas, outra trabalha até tarde no hospital. Quando tem plantão, ela só vem buscar a criança no dia seguinte.''
Dentre as crianças que ela atende, sete já estudam no Ensino Fundamental e outras estão matriculadas na creche em frente a sua casa. Nenhuma tem menos de 3 anos. Há dois anos, que R.O. busca Mayane, de 7 anos, depois da escola. A mãe da menina precisa que a filha fique, pelo menos três dias na semana com a mãe-crecheira. ''Não tenho com quem deixar a Mayane. Prefiro que seja aqui, sei que ela vai comer direitinho e brincar com as outras crianças'', disse a diarista Marta Ramos da Silva, de 40 anos.
Para as crianças mais velhas e rebeldes, R.O. confessa que às vezes é preciso colocá-las para ''pensar melhor''. ''Deixo um tempo de castigo, sentados num canto, para eles refletirem na coisa errada que fizeram. Tenho que educá-los de alguma forma, afinal eles passam mais tempo comigo do que com os próprios pais'', justifica a mãe-crecheira, que não tem nenhum grau de parentesco com as crianças que atende.
Motivos financeiros também levaram a auxiliar de produção T.R., de 37 anos, a assumir o ofício de mãe-crecheira, há um ano. ''Eu estava desempregada e uma das minhas vizinhas que deu a idéia, porque eu já trabalhava na igreja com catequese infantil. Comecei cuidando dos dois filhos dela'', relata T.R., que cobra de R$ 80 a R$ 100 por mês para também para acolher e alimentar uma criança, na sua casa, no bairro Tatuquara.
T.R. que cuida de sete crianças, de 6 meses a 10 anos, destinou para a atividade um quarto para o os bêbes dormirem e a sala com TV e DVDs infantis. Assistir filmes e passear no bosque é a atividade que os pequenos mais gostam de fazer. A jornada da mãe-crecheira, que recebe ajuda das filhas Agda, de 19 anos, e Aline, de 17, tem horário limitado, das 7h às 19h30. ''Eu gosto das crianças, por isso até agora não desisti. É muita responsabilidade e o que recebo só dá para cobrir as despesas com alimentação da casa'', disse ela.
A mãe-crecheira já pensou em criar mais atividades para as crianças que ela acolhe. ''A conselheira disse que eu poderia conseguir mesas e cadeirinhas para eles aprenderem a comer sozinhos e também para pintar e desenhar'', conta T.R., dizendo que profissionais do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) visitaram sua casa. ''Mas eles exigiram que eu construísse um banheiro novo e fizesse outras adequações na casa para que eu recebesse esse material. Acabei desistindo. Não tenho dinheiro para isso'', desabafa ela, informando que conhece, pelo menos, outras seis mães-crecheiras no bairro.

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