Luvas cor-de-rosa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de julho de 2008
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
O título provisório desta matéria era Briga de Mulher. Nada mais politicamente incorreto. Garotas que praticam artes marciais não brigam, lutam. E querem ser reconhecidas como atletas, apesar do preconceito que ainda ronda esse universo.
Não estamos falando de adeptas de caratê, judô e outras modalidades olímpicas. O papo aqui é muay thai, jiu-jitsu e vale-tudo, lutas em que a agressividade é tão importante quanto a técnica. Celeiro de campeões do gênero, Curitiba conta com academias em quase todos os bairros. Era só uma questão de tempo para que as moças também aderissem aos ringues e tatames.
No começo da década, escolas como Chute Boxe, Thai Boxe, Noguchi e World Strong passaram a receber um número cada vez maior de garotas. Inicialmente, elas só queriam manter a forma por meio dos treinos pesados característicos desses esportes. Mas algumas delas se aprimoraram e decidiram encarar as disputas oficiais.
Naquele tempo, luta feminina era um freak show. Hoje, alguns torneios já programam como combate principal, festeja Ingart Domingos, 29 anos, da academia Chute Boxe. Ela e outras dez atletas conversaram com a reportagem da FOLHA sobre treinamento, feminilidade, machucados e, é claro, namorados.
Aliás, a maioria entrou nesse mundo por
influência dos rapazes.
Não vou mentir. Comecei a me interessar por luta porque gostei de um professor, diverte-se Bárbara Philipsen, 21.
Com o tempo, elas contam, fica difícil se envolver com quem não é do meio. Além de treinar com homens, o que desperta cíumes, as praticantes colecionam hematomas por todo o corpo. Já tive um namorado que vivia reclamando disso. Preferi ficar com a luta, conta Letícia Bacil, 18.
Haja pomada, gelo e creme para diminuir e esconder as marcas. Em alguns casos, é preciso pegar leve na academia para não chegar no trabalho estropiada. A policial militar Andréia Alberti, 30, por exemplo, evita a todo custo receber golpes no rosto. Trabalho na Delegacia da Mulher. Imagina se alguma vítima de violência chega lá e me vê de olho roxo?, brinca.
As conseqüências nem sempre se limitam a manchas roxas aqui e ali. Até porque o muay thai, popularmente conhecido como boxe tailandês, inclui duríssimos golpes de joelho e cotovelo. E o que dizer do vale-tudo, cujos combates quase sempre terminam em sangue? Adriana Moreira, 19, achou que nunca mais treinaria após ter problemas no nervo ciático. Ingart, cuja trombose foi agravada pelas pancadas, deve ficar seis meses longe dos ringues.
O risco de lesões preocupa os pais das lutadoras, que também não vêem com bons olhos a transformação física das filhas. Mas, para elas, ter o corpo forte não é apenas um reflexo do condicionamento rigoroso. A gente gosta desse visual mais definido, confessa Andréia, mulher de um treinador e mãe de duas meninas pequenas.
Apesar do orgulho pelos músculos desenvolvidos, cada atleta tem seus truques para não perder a feminilidade. Adriana usa um par de luvas cor-de-rosa. Mais performática, Letícia prepara uma entrada triunfal para seu próximo combate. Encomendou uma espécie de calção-saia e vai usar a música Barbie Girl como tema de seu trajeto até o ringue.
Há apenas uma dificuldade que elas não conseguem contornar: a TPM e suas alterações de humor. Já saí várias vezes do treino chorando sem motivo, conta Ingart.
O sentimentalismo, no entanto, fica restrito à fase de preparação. Quando chega a hora de encarar a adversária, a ordem é bater firme. É melhor que a mãe dela chore do que a sua, diz Letícia, repetindo um bordão comum entre as lutadoras. Alguém aí falou em sexo frágil?


