Todas as segundas-feiras um grupo de aproximadamente 20 pessoas se reúne no prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, em Curitiba. Lá os integrantes compartilham experiências e procuram se conformar com a perda de algum parente próximo. São pais, avós, esposas e irmãos que desabafam sobre a dor de viver sem a presença de alguém que já morreu. Eles fazem parte do grupo Amigos Solidários na Dor do Luto.
Durante o encontro todos os integrantes podem falar sobre a solidão que sentem. As famílias em que a morte foi recente geralmente não conseguem expor os sentimentos em público e as palavras não saem em meio às lágrimas. Mas quem já passou por isso há algum tempo desabafa e aconselha os novos colegas.
O objetivo é melhorar o rumo da vida e dar ânimo para a pessoa trabalhar e viver. É o que afirma a coordenadora do grupo, Zelinda De Bona. O projeto existe há 10 anos. ''Quando uma pessoa morre ficamos em estado de choque, depois não aceitamos o fato. Em seguida vem a raiva e a culpa'', explica a coordenadora. Ela entrou no grupo após seu neto de 14 anos morrer em um acidente. ''Entrei por amor a ele e a mim mesma. Para trabalhar com este público tem que estar bem, pois acontecem muitos altos e baixos. As pessoas precisam ser ouvidas, amadas, entendidas''.
Zenilda conta que o grupo não faz milagres, mas todos caminham lado a lado e compartilham a dor que sentem. ''Não é fácil entrar em um grupo como este. A vida nunca mais será igual depois que alguém morre. Mas aqui um consola a dor do outro. É um luto compartilhado'', explica. Para participar não é necessário pagar e as pessoas não ficam presas somente na sala. Às vezes também fazem passeios e viagens.
Ao final da reunião é realizado um círculo e uma oração. Todos se abraçam e fazem votos de felicidade aos colegas. ''Muitas vezes as pessoas passam a semana inteira sem falar com alguém. Elas precisam do toque dos que entendem da dor que sofrem'', diz Zenilda.
Nesta semana a auxiliar de serviços gerais Sueli Paticowski participou do encontro pela terceira vez. Há três anos ela perdeu dois filhos, de 17 e 19 anos, em um acidente de carro. Foi aconselhada por uma psicóloga a procurar ajuda e apoio com as pessoas que participam das reuniões. O marido ainda está abalado e Sueli agora procura orientação de quem já passou por isso. Ela pretende continuar a frequentar os encontros para também tentar confortar o esposo e o neto, de 4 anos. ''Está sendo muito bom sentir que posso desabafar sobre o que aconteceu e aprender com as outras pessoas''.
Outra participante do projeto é a cabeleireira Ernita Soares. Após o marido ter morrido de câncer e o pai sofrer um acidente ela integrou o grupo. Há dois anos vai todas as semanas e acredita que falar e ouvir as outras pessoas ajudou muito. ''Quando alguém morre, os amigos aparecem, mas logo somem. Aqui encontrei novos amigos''.
A dona de casa Nilcéia de Oliveira procurava consolo para superar o trauma de perder dois filhos. Com a ajuda dos colegas hoje consegue falar sobre o assunto sem sofrer tanto. Na bolsa, a foto dos filhos vai junto com ela para todos os lugares. ''Eu troco de bolsa conforme a cor do sapato. Mas as imagens dos meus filhos vão sempre comigo'', avisa Nilcéia.
Entre as que gostam de manifestar a opinião e ajudar os outros está Sueli Miranda. Seu filho foi sequestrado e morto há 17 anos. Depois disso ela sofreu bastante, mas conseguiu superar o ocorrido. Anos mais tarde resolveu integrar o grupo para poder ajudar as pessoas que passam pelo o que ela já viveu. ''Neste momento temos que dar as mãos e ser solidários. Eu cresci na minha espiritualidade. Tive câncer e o grupo me ajudou. Ao mesmo tempo que a gente chora também rimos e nos divertimos. A vida não tem que ser feita só de sofrimento. Temos que viver''.

SERVIÇO
O grupo Amigos Solidários na Dor do Luto funciona toda segunda-feira, das 14 às 16 horas, na sala 104 da ala de Psicologia no prédio histórico da UFPR, Praça Santos Andrade.
Informações: 9113-4262 e 3252-5016
[email protected]

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