Equilibrando-se nas madeiras que rodeiam um poço, a cigana Onofrinha Marques retira um latão de água, que será usada para lavar a louça acumulada em sua tenda, localizada no acampamento cigano da Rua João Dembinski, na Cidade Industrial de Curitiba. A tarefa é arriscada para uma senhora de 67 anos, exigindo cuidado redobrado. ''Difícil, mas é o único jeito, fazer o quê'', resigna-se.
Nascida na Bahia, a cigana já rodou o Brasil, passando por dezenas de acampamentos espalhados país afora. Mãe de oito filhos, avó de ''não sei quantos netos'' e até com bisnetos, Onofrinha está na capital há dois anos e faz questão de trazer no corpo a preservação de uma tradição cultural de seu povo: a roupa. ''Eu só uso esses vestidos e acho bem mais bonito que essas roupas que os outros usam por aí. É nossa marca'', argumenta.
O gesto é uma das últimas esperanças de se manterem vivos hábitos e tradições ciganas. Representante da etnia no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o curitibano Cláudio Iovanovitchi, neto de um cigano expulso da Bósnia, explica que a atitude é fundamental, já que o país foi formado por negros, índios e ciganos. Segundo ele, o povo é discriminado pelo Ministério da Cultura. ''O ministério seria o primeiro a ter a obrigação de criar meios de geração de conhecimento, para contar nossa história'', defende, lembrando que já tentou várias reuniões com o ministro Gilberto Gil, sem sucesso.
Com as mãos sujas de graxa, o cigano Alex Marques da Cruz, de 31 anos, remexe as peças de um carro em uma oficina improvisada. É assim que ele, que já viu dezenas de portas se fecharem ao pedir um emprego, busca a sobrevivência. ''O cigano é milenar, mas não tem ninguém que cuide dele. Ele não desmata, não polui, não rouba, mas também não tem direito a nada, vai pedir um emprego e ninguém dá. Não temos oportunidade'', reclama. Alex conta que um dos grandes problemas é o analfabetismo. ''Eu sei dirigir, conserto carros, conheço tudo de mecânica. Mas não posso tirar uma carteira de motorista porque não sei escrever. Entendo de carro mais que muita gente, mas não posso dirigir. Será que é justo?''
Difícil também é sobreviver nas tendas semi-abertas do acampamento. Nos dias frios, um desafio. Nas épocas de chuva, apreensão. ''Não tem como não ficar preocupado. Se for muito forte, pode fazer um estrago'', frisa Cláudio. Além da ausência de água, que faz dona Onofrinha se arriscar no poço, os ciganos precisam driblar a falta de luz e de saneamento básico - acusada pelo forte cheiro do local, que deixa vizinhos bastante incomodados. Uma moradora da região, que prefere não revelar o nome, diz que não é contra os ciganos, aprecia a cultura, mas que é ''triste morar perto desta falta de higiene''. ''Deviam dar um jeito nisso'', protesta.
Para Cláudio, o problema é social e não exclusivo dos ciganos. ''Nas favelas também é assim, esgoto a céu aberto, mau cheiro. Mas com os ciganos querem expulsar, fazer abaixo-assinado. O Estado tem que agir para fornecer saneamento básico e não querer expulsar o cigano. Senão tem que expulsar todo mundo das favelas também'', argumenta.

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