Lustrar sapato tem endereço certo
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terça-feira, 10 de abril de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Quando o sapato social já perdeu o brilho e acumula uma sujeirinha difícil de sair com a escova de casa, o comerciante Elias de Souza, 56 anos, leva o calçado para a Boca do Brilho, Centro de Curitiba. ''Nunca deixo de lustrar. Pelo menos, uma ou duas vezes, por semana, trago meus sapatos. Geralmente aproveito para engraxar quando venho resolver negócios no Centro'', disse ele, enquanto mais um par ganhava brilho impecável. ''Já teve casos de eu ter que sair lá da Água Verde, onde moro, para vir aqui, porque você não encontra este serviço em shoppings, por exemplo'', contou Elias.
Nas contas do comerciante, natural de Paranavaí, há dez anos ele engraxa o sapato na Boca do Brilho, localizada à Rua Voluntários da Pátria e ao lado da Praça Osório. ''São só dez minutinhos para lustrar o calçado. Acho feio ficar com os sapatos sem brilho, dá um aspecto de relaxado ao visual'', justificou Elias, reforçando que o serviço deveria ser ofertado em outros locais da cidade. Quem engraxava os sapatos do comerciante era Benedito Moreira, 56 anos, e há 20 no ofício, cuja técnica aprendeu observando outros profissionais da categoria.
''Eu trabalhava na roça, em Umuarama, só quando vim para Curitiba é que fui aprender e acho que ainda não sei muita coisa'', brincou Benedito, dizendo que o ''kit'' básico de trabalho do engraxate é composto de flanela, escova, graxa e tinta. ''Graças a Deus a nossa profissão é valorizada pelas pessoas ainda'', acrescentou ele, que atende de 20 a 30 pessoas, por dia. A Boca é mais procurada pelos clientes na hora do almoço e o preço para engraxar um par de sapatos é R$ 4,00. Já para pintar e engraxar custa R$ 12,00, o serviço mais caro cobrado.
''Aqui, além de ser referência na cidade é uma forma de receber melhor o cliente, pela própria estrutura do espaço e pela quantidade engraxates disponível, que são 20'', destaca o coordenador da Boca do Brilho, João de Lima, de 43 anos, também presidente da Associação dos Profissionais Lustradores de Calçados de Curitiba. Segundo ele, 39 engraxates são filiados a entidade que já teve mais de 100 associados. ''Não acho que as pessoas deixaram de engraxar os sapatos, porque usam, agora, mais calçado esportivo do que social. O movimento caiu para todo mundo do comércio'', acredita.
De acordo com João de Lima, foi no dia 1º de fevereiro de 1981 que os engraxates saíram da Boca Maldita para a Boca do Brilho, que já teve várias sedes desde então. Para o presidente do sindicato, engraxate é uma profissão exclusivamente de homens. ''Imagina se tivesse mulheres no setor, seria complicado. Mulher aqui, só cliente'', brinca João, informando que a mulherada procura a Boca da Brilho, principalmente, no inverno para lustrar botas de couro. Nesse caso, o valor do serviço depende do comprimento da bota e fica em torno de R$ 8,00.
''Antes a Boca do Brilho era feia, não era coberta e ficava do outro lado, perto da cancha. Há seis anos que estamos nesse lugar e tudo que solicitamos de manutenção para Prefeitura é feito. Basta enviar um ofício'', relatou João de Lima. Antes de serem transferidos para a Praça Ozório, os engraxates atendiam na Boca Maldita. ''Eles ficavam ao relento e, no final do dia, embrulhavam as cadeiras com lonas pretas. A Rua XV parecia um verdadeiro acampamento de sem-tetos'', relembra Rafael Greca, que foi prefeito de Curitiba entre os anos de 1992 e 1996.
''Eles atrapalhavam o trânsito de pessoas, corriam o risco de perder clientes em dias de chuva e, inclusive, não tinham segurança para guardar seus pertences'', justifica Greca, informando que, em 1993, os engraxates foram transferidos para a Praça Osório e o grupo passou a ser denominado como Boca do Brilho. ''Encomendei cadeiras novas para eles, em Santa Felicidade, feitas de vime e lona, semelhante a um modelo que eu tinha visto na Côte D'Azur, na França. Era muito bonita e serviu provisoriamente para eles atenderem melhor a clientela e para reorganizar o centro da cidade'', disse Rafael Greca.


