Tempo do vertiginoso desenvolvimento científico e tecnológico, que consolidou a confiança na capacidade humana, tempo de guerras brutais e violência cotidiana, que trouxe o desencanto e o fim das utopias, era da experimentação máxima e de rupturas múltiplas, o Século XX chega ao fim marcado pela angústia da civilização diante de um mosaico de conquistas e fracassos. Não há definição capaz de abarcar todos os grandes processos que construíram a História a partir de 1900.
Analistas renomados produziram conceitos razoáveis, mas deixam clara a limitação diante da complexidade e riqueza deste turbilhão que envolveu o planeta ao longo destas décadas. E como a própria realidade ganhou um contraponto virtual, não há sequer a certeza de que o tempo seguirá seu padrão a ponto de produzir uma imagem nítida do Século XX quando ele for passado. O tempo histórico se acelerou, lembra o economista e ex-ministro Celso Furtado, e talvez não permita cunhar um título perfeito como o dado ao ‘‘Século das Luzes’’, na virada de 1800.
Os pensadores desta era de instabilidade, de pulverizações ideológicas e culturais, e os protagonistas da eletrizante aventura do Homem mecanizado e digital fixam apenas os fatos e fenômenos para, se possível, assimilar tendências. ‘‘O Século XX deixa uma grande lição de humildade’’, constata José Mindlin, nome de referência sobre a cultura. As certezas religiosas e filosóficas que restavam 99 anos atrás foram quebradas, e mesmo o conhecimento científico tornou-se mais e mais provisório.
A própria certeza do caráter humano foi posta em xeque pela matança em guerras primitivas e tecnológicas, em planos delirantes de poder, em confrontos de nações e vinganças étnicas. ‘‘Tivemos 170 milhões de mortos’’, conta o economista Roberto Campos ao puxar o saldo do ‘‘pior dos séculos’’, que também é ‘‘o melhor dos séculos’’. Mas a consciência das limitações instiga e gera descobertas, e a consciência da brutalidade latente pode tornar a paz mais possível.
Esperança não é o termo mais preciso diante da perspectiva otimista. Desafio, talvez. ‘‘Acabaram as utopias, mas há, por outro lado, uma noção mais clara do compromisso da solidariedade’’, inspira o médico Drauzio Varella, que extraiu de um presídio, com centenas de condenados, verdadeiras lições sobre o respeito humano e a igualdade perante a lei. O foco está na ação pessoal conjugada, na mobilização de indivíduos.
O mesmo individualismo gerado pelo progresso tecnológico e pela cultura do consumo, que isola cada ser humano ‘‘diante de sua TV ou de seu computador’’, como lamenta o ator Paulo Autran, pode estimular a autonomia das pessoas. Em algum ponto de cada microcosmo doméstico pode haver a fusão de idéias, dúvidas, angústias e buscas que, em escala global, fazem o mundo se mover.
O desafio está, portanto, na consolidação da democracia como regime universal, que garanta a liberdade de pensar e agir, seja através de governos e organizações coletivas simples. ‘‘A democracia é o valor político que fica mais claro no Século 20’’ resume Paulo Renato Souza, ministro da Educação. Esta é a idéia comum que põe lado a lado os pensadores e protagonistas das mais diversas correntes, e que possibilita sinalizar um rumo para o Homem do Século 21.
Na chegada do ano 2000, pensa-se o mundo sem projetos, mas com algumas diretrizes básicas praticamente universais: a cidadania, a solidariedade e o respeito à diversidade. E, para tanto, é preciso educação e informação, para vencer a miséria e a fome antes de tudo, e para assumir um espaço social mínimo.
Se os grandes pensadores contemporâneos se juntassem para formular um documento básico para as próximas gerações, provavelmente começariam deste ponto. A Carta do Ano 2000, como poderia se chamar, seria um texto simples e despretensioso, despojado de ilusões e planos complexos, um convite para que cada pessoa continue tentando se humanizar para garantir a vida na Terra.

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