Para alguns, Natal é sinônimo de compras e preparativos para festas e viagens. Para outros, a época é de solidariedade, provando que o ''espírito de Natal'' ainda existe. Em Londrina, exemplos não faltam de pessoas que aproveitam a data para fazer o bem. E a recompensa garantem é um sentimento de paz e de dever cumprido.
Foi depois de passar um Natal no hospital, acompanhando o pai que estava internado, que Neuza Sabino dos Santos teve a idéia de dar um pouco de atenção aos doentes internados. Nessa noite ela percebeu que o sentimento geral no hospital era de espera. ''Era Natal e os médicos tinham dado alta para todos os casos que era possível. No hospital só estava quem não podia mesmo sair. Já era tarde, mas havia um sentimento no ar, eles esperavam por alguma coisa'', conta.
Segundo Neuza, apesar do ''Papai Noel'' ter passado no dia anterior no hospital, as crianças ainda não haviam aberto os presentes e os idosos estavam tristes e solitários. A partir disso, Neuza resolveu proporcionar um Natal diferente para aquelas pessoas, e ela mesma ter uma comemoração como nenhuma outra.
Desde então, há oito anos, é no Hospital da Zona Sul (HZS), distribuindo balas e brinquedos, carinhos e abraços, conversa e aconchego, que ela passa o Natal.
Só o dia 25 é reservado à família e, por causa disso, Neuza já enfrentou dificuldades. Ela lembra que quando o marido era vivo, não entendia sua necessidade de ajudar os outros, mas depois passou até a acompanhá-la. Ela mesma já pensou em parar, ''uma vez, quando estava cansada e magoada por uma morte que tinha acontecido no bairro''. Não parou e foi melhor: ''Às vezes é necessário passar por cima da nossa dor, para mudar os outros''.
Solidariedade na vida de Neuza não é novidade, e nem restrita à época de Natal. Com 16 anos, depois de casar, participou de um trabalho de ajuda da Igreja Católica para dependentes químicos. Depois, quando se mudou para o Conjunto Cafezal 2 (Zona Sul), na década de 80, mobilizou a comunidade para a construção da Creche Aracy Sabino dos Santos. ''Nessa época não tinha nada no bairro, asfalto ou padaria. Nem o ônibus entrava aqui. Alguém tinha que fazer alguma coisa, não dava para ficar esperando prefeito'', relembra.
Há 17 anos se mobilizou de novo para que as crianças da creche, a maioria carente, pudessem ter um presente no Natal. Buscou padrinhos para ''adotar'' as crianças e dar à elas uma roupa, um sapato e um brinquedo. Todo ano, ela também costuma ganhar presentes da filha e da mãe, mas o maior presente é terminar o dia 24 com uma sensação de paz.
''Quando o dia 24 termina, tenho a sensação que, se morresse, estaria tranquila, em paz, não devendo nada para ninguém. Tenho uma alegria natural, vivo bem. Me considero uma criatura privilegiada. Entristeço, sim, com coisas tristes, mas isso não fica na minha vida''.

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