Londrinenses ilegais sofrem em Portugal
A londrinense Júlia da Silva Rosa chora todas as noites de saudades dos cinco filhos, que moram no Conjunto Semiramis, nos Cinco Conjuntos, Zona Norte de Londrina. Ela chegou a Portugal em janeiro deste ano com o sonho de conseguir dinheiro para comprar uma casa e um pequeno restaurante.
Logo no primeiro mês vi que as coisas seriam mais difíceis do que eu imaginava. Fiquei 28 dias sem trabalho e cheguei a comer pão com manteiga durante uma semana, conta ela, que hoje trabalha como dama de companhia de um senhor de 86 anos, na cidade de Alenquer.
Ganhando 450 euros por mês (R$ 1.462,50), seu salário é mais baixo do que o vigente no mercado para uma empregada interna (que dorme no trabalho), que vai de 550 a 700 euros (R$ 1.787,50 a 2.275,00). Sei que estou sendo explorada, mas não tenho outra opção. Trabalhando dentro de casa me sinto mais protegida das fiscalizações da imigração, que acontecem mais em restaurantes, diz. Ela está em situação ilegal no país e reclama de trabalhar 24 horas diárias, sem nenhuma folga semanal. De madrugada tenho que dar remédio ao meu patrão.
Para vir a Portugal, Júlia fez uma dívida de cerca de R$ 6 mil, entre o financiamento bancário e o parcelamento da passagem aérea. Preferia estar no Brasil mas não posso voltar porque tenho que pagar essa dívida. Terei que ficar em Portugal no mínimo por três anos, calcula. Só para pagar o bilhete do avião, Júlia terá que enviar R$ 225 por mês, durante um ano. Outro grande problema é a solidão. Não tenho amigos e vivo sempre sozinha. Não dá para não chorar.
A jovem Renata Morete, que também é do Cinco Conjuntos, em Londrina, mora em Lisboa desde setembro do ano passado e não tem visto de permanência. Ela conta ter sido influenciada pelos comentários de amigos e parentes que diziam que salários mensais de R$ 2 mil eram comuns em Portugal. Vim para conhecer e acabei ficando. Estranhei muito a grosseria dos portugueses mas achei que seria fácil ganhar dinheiro. Só que até agora não juntei nada.
Segundo ela, o lado positivo é ter conseguido sair de casa. Em Londrina, eu não tinha condições de me manter sozinha com o meu salário, que era cerca de R$ 300. Em Lisboa, ganho 450 euros por mês (R$ 1.462,50) no balcão de uma cafeteria, onde posso almoçar e lanchar à tarde, diz. Pelo aluguel do quarto onde mora, Renata paga cerca de 150 euros (R$ 487,50), além de gastar outros 100 euros (R$ 325,00) com alimentação. No primeiro emprego fui bastante explorada. Recebia 300 euros (R$ 975,00) por mês para tomar conta de uma criança em tempo integral.
A londrinense Iara Mello, também sem visto de permanência, considera sua situação privilegiada em relação a maior parte dos imigrantes brasileiros. Não tenho dívidas e não tenho pretensão de juntar dinheiro por já ter casa própria no Brasil, conta. Mesmo assim, Iara diz ter passado por situações difíceis em Portugal. Já fiquei sem dinheiro e tive que ser ama de crianças e governanta na casa de um ex-embaixador português. Agora trabalho para uma importadora, vendendo pão de queijo e outros produtos brasileiros e ganho cerca de 700 euros (R$ 2.275,00) por mês. Mas com a nova lei de imigração não recomendo Portugal para ninguém.





