Paris- Formada em Letras, trabalho em Ribeirão Preto (SP), família grande, amigos, tranqulidade: que mais poderia querer da vida a professora Léa de Oliveira, de Londrina? Por uma dessas razões que ninguém sabe explicar direito, essa paranaense de 35 anos pediu demissão do emprego, virou a mesa e comprou uma passagem para a Europa. O destino: Paris, uma cidade que ela já gostava mesmo antes de chegar e onde se fala uma língua que ela sonhou a vida toda em falar.
Desde quando chegou, em outubro de 2001, Léa trabalha como faxineira e babá, ocupações bem diferentes da sua profissão. Mas isso não é nada perto do verdadeiro enrosco: viver sem documentos. ''Quando o ministro do Interior vem na tevê e diz que vai buscar os ilegais onde eles estiverem, sinto como se ele estivesse falando para mim. Nessas horas eu me sinto uma não-cidadã'', confessou. ''A gente trabalha, consome, movimenta a economia, mas a ilegalidade impede a ter acesso a muitos direitos'', completou ela.
Sem garantia de coisa alguma, seja trabalho, seja lugar para morar, ainda assim Léa não pensa em voltar. ''Eu tinha tudo para ser feliz no Brasil e não era. Aqui em Paris eu teria tudo para sofrer e sou feliz'', disse ela, que aluga um quarto em um bairro nobre e ganha, com todos os bicos que faz, cerca de 1,3 euros por mês.
A tal falta de perspectiva apontada por muitos que deixam o Brasil também é lamentada por Léa. ''Eu não via modo de progredir, não tinha horizonte, por isso parti. O Brasil perdeu uma boa professora, mas em compensação a França ganhou uma ótima faxineira, a melhor de todas'', afirmou, sem nenhuma modéstia.
Sempre confiante de que um dia o vento poderia virar, Léa espera em breve pôr fim ao tormento da ilegalidade. Visto de trabalho? Visto de estudante? Nada disso. Como nos clássicos contos de fadas, ela encontrou um francês, os dois se apaixonaram e vão se casar em aproximadamente dois meses. Enfim, a paranaense terá em mãos a tão sonhada cidadania francesa. E a partir daí? ''Continuar trabalhando, comprar um apartamento (em Paris, claro), viajar, aproveitar o que a vida tem de bom. Só isso'', planeja, a mais francesa das londrinenses.

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