Conta a história que o famoso jornalista paraibano Assis Chateaubriand costumava chantagear grandes empresários para que ‘‘doassem’’ aviões aos aeroclubes de vários cantos do País, nos anos 40, sob a ameaça de retribuir às recusas com críticas e difamações em algum dos veículos que compunham seu emergente império das comunicações. Integrantes da primeira turma do Aeroclube de Londrina lembram-se disso e recordam que aproveitaram um dia em que o município ficou sem prefeito – entre a queda da ditadura Vargas e a redemocratização em 1945 – para cortar os pés de café plantados em propriedades de japoneses na Zona Leste, então confiscadas pelo governo da época, e dar como preparado o terreno para construção do aeroporto.
  Foi assim, com métodos nem sempre ortodoxos, que se impulsionou o desenvolvimento da aviação brasileira, terreno onde ainda se caminhava com desconfiança quatro décadas após o primeiro vôo bem sucedido do pai da aviação, Alberto Santos Dumont, em 1906. Boa parte das páginas londrinenses dessa história estão guardadas na memória do médico Jonas Faria de Castro Filho, 85 anos, um dos únicos remanescentes da primeira turma do Aeroclube de Londrina, fundado em 1941. Viúvo, pai de cinco filhos e ‘‘incontáveis’’ netos e bisnetos, Castro Filho vive sozinho na chácara batizada com o mesmo nome de sua cidade natal, a fluminense Carangola, entre gatos, amapolas, árvores centenárias e livros. Foi lá que recebeu a reportagem da Folha para rememorar o início da ‘‘Londrina voadora’’.
  ‘‘O primeiro avião do aeroclube, doado pelo Assis Chateaubriand, chegou a Londrina no dia 7 de setembro de 1942, às 17 horas. Era um avião espetacular, americano, prefixo TSH. Mas aí o piloto que veio trazer o avião de São Paulo não achou o campo de aviação velho na Gleba Palhano (Zona Sul) e acabou pousando na fazenda de uma família, onde hoje é o Jardim Shangri-lá (Zona Oeste). ‘‘Parou em cima dos pés de café e quebrou a roda, porque não era passarinho para pousar em árvore’’, ironiza.
  Com este e outros dois aviões conseguidos por Chateaubriand, ‘‘um HL-1 e um avião de guerra americano, usado para vigilância de praias’’, como sublinha Castro Filho, Londrina começava a formar seus primeiros pilotos. Eram médicos, advogados, políticos – jovens com certo conforto financeiro que não tinham pretensão de fazer do vôo uma profissão; em geral, buscavam aventura. ‘‘Era a diversão da época. Só havia o tênis e o aeroclube’’, sentencia. Sem um décimo dos aparelhos de apoio existentes hoje, era preciso muita coragem para enfrentar os ares. ‘‘A nossa grande bússola era a estrada de ferro, voávamos sobre os trilhos dela. Numa época em que nossos aviões eram absolutamente primitivos, o principal instrumento era o bom senso. Hoje avião é muito chato, tudo feito por computador, você fica lá dentro só olhando para o teto’’,
assinala.
  Embora tivessem permissão para vôos internacionais, os pilotos formados pelo Aeroclube de Londrina costumavam se restringir a viagens até a capital paulista, um trajeto relativamente pequeno que precisava ser interrompido três vezes para reabastecer o avião. Em diversas ocasiões, esses vôos significavam mais do que diversão para os pilotos: foi em uma série de viagens para São Paulo que o Aeroclube contribuiu para o primeiro tratamento com penicilina de uma doente em Londrina. ‘‘A mulher havia tido uma infecção pós-aborto e precisava de injeções de penicilina de três em três horas. Como ainda não havia geladeira para armazenar o medicamento, tínhamos que buscá-lo diariamente no Instituto Biológico, em São Paulo. Salvamos a
vida dessa doente’’, conta Castro Filho.
  Os integrantes do aeroclube também utilizam seus aviões para facilitar a comunicação. Voavam distribuindo correspondências por cidades próximas como Bela Vista do Paraíso, Sertanópolis, Assaí, e, nesses destinos, iam criando aeroportos. ‘‘Londrina só tinha um telégrafo, não havia como se comunicar. Meu sonho era fazer do aeroclube um complemento do Correio Aéreo Militar.
Teria sido uma forma de fazer o correio funcionar melhor. Mas a Aeronáutica não deixou. A política não deixou’’, observa.
  Para o médico, que recebeu Chateaubriand duas vezes em sua casa devido ao aeroclube, o paraibano foi o grande pai dos aeroclubes brasileiros. ‘‘Ele foi responsável pela mentalidade da aviação no Brasil. Era extremamente maluco, conseguia os aviões praticamente na base da chantagem. Se você não desse um avião para Londrina, por exemplo, ele arranjava um jeito de meter o pau na sua firma através dos jornais dele.’’

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