Livro mostra infância dos meninos de kichute
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de julho de 2004
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
Tênis Adidas, kichute, chinelo Havaiana, descalço. Este era o ''uniforme'' dos meninos da Vila Nova nos anos 1970. A história das brigas e aventuras dos garotos do Clube Social Educativo e Esportivo Meninos de Kichute é contada por um dos integrantes, o escritor e dramaturgo Márcio Américo, 40 anos, no livro ''Meninos de Kichute.'' De acordo com o autor, a obra, lançada em outubro do ano passado, narra a própria infância, mas também a luta de classes entre as crianças do bairro.
Um trecho resume as diferenças sociais entre os integrantes da turma.
- ''Tênis Adidas: rico, meio bundinha, não confiável, tem irmã bonita, ganha presentes de natal, bebe leite todo dia, escova os dentes.
- Kichute: pobre, legal, confiável, às vezes tem irmã gostosinha, às vezes ganha presentinho no natal, bebe leite, alguns escovam os dentes.
- Chinelo Havaiana: muito pobre, desonesto, não confiável, não tem irmã e quando tem é meio vagabundinha, não ganha presentes no natal, só bebeu leite materno, nunca escova os dentes.
- Descalço: miserável, esperto, nada confiável, tem irmã puta, rouba presentes de natal, já toma pinga e fuma, não tem dentes.''
Estes tipos diferentes conviviam na Vila Nova, nos campinhos, nas reuniões do clube, nas confusões. Para Márcio Américo, que morou no bairro entre 1969 e 1979, foi uma infância bem distinta das crianças de hoje. As principais diferenças são, segundo ele, a segurança e a amizade. ''Hoje, a insegurança impede de deixar as crianças brincarem na rua. Antes, as brigas, quando muito provocavam um hematoma. Era a rua de baixo contra a rua de cima. Nunca acabavam com ninguém no hospital ou no cemitério'', relembra. ''E as brigas serviam de combustível para aumentar a amizade'', acrescenta.
Márcio Américo admite, no entanto, que houve ondas de violência, como a época dos ''playboys'' e dos tarados. ''Foi uma fase passageira de guerra de gangues. Foi uma onda restrita de violência em determinado tempo'', constata. Hoje, ele mora na Área Central, apenas próximo da Vila Nova. Contato com os antigos amigos do Clube dos Meninos de Kichute, praticamente não existe mais. Até porque a maioria mudou-se para outros bairros ou cidades.
Ele destaca que a construção de casas populares em bairros afastados interferiu no cotidiano da Vila Nova. ''Se, por um lado foi bom para os trabalhadores, por outro separou os amigos, que foram morar em locais distantes. Quem ficou na Vila era quem tinha casa própria e não eram muitos, era uma meia dúzia'', contabiliza.
Apesar da proximidade com o Centro, a Vila Nova está, nas contas de Américo, 50% preservada. ''A Vila Nova tornou-se um forte não contra o progresso, mas contra o progresso desordenado, que acontece não só em Londrina, mas em qualquer cidade'', afirma. O escritor, porém, reconhece que a tendência é que o bairro perca sua atmosfera de cidade pequena. ''Com o tempo vai acabar. Você não pode ser um idiota saudosista, acreditando que o tempo tem que parar. As casas de madeira que estão em pé são mantidas por obstinação do dono'', constata. ''Quando o último pioneiro da Vila Nova morrer, abrem-se as portas para o progresso de cima da Leste-Oeste com tudo'', conclui.


