LITERATURA POLITIZADA - Monteiro Lobato previu eleição de um presidente negro nos EUA
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de fevereiro de 2008
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Uma das boas notícias, ainda datada de fins de 2007, foi a de que Monteiro Lobato passa a ser reeditado pela Globo, com tiragens mínimas de 20 mil exemplares e ortografia atualizada, superado o impasse entre os herdeiros da obra e a Brasiliense, ex-detentora dos direitos de publicação. Já em 2008, vão-se passar 60 anos da morte do escritor que maior impacto causou nas gerações brasileiras, por sua literatura infantil e juvenil fortemente politizada. Coincidentemente, o tema de um dos livros de Lobato, romance utópico à época da publicação, converte-se numa possibilidade este ano: a eleição do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, com o senador Barack Obama.
Em um ano eleitoral que se afigura democrata, ante a crescente opinião pública desfavorável ao presidente (republicano) George W. Bush, a senadora Hillary Clinton vinha despontando, nas pesquisas, para se tornar um fato inédito: a primeira presidente norte-americana. As eleições primárias em Iowa, New Hampshire e Nevada deram fôlego a Obama e analistas acreditam que ele possa avançar nas primárias de 5 de fevereiro, em 22 Estados, e ser nomeado o candidato democrata à eleição presidencial.
Seria uma antecipação ao romance, em que os Estados Unidos elegem o primeiro presidente negro só em 2228. A ficção do século 23 e a realidade do século 21 têm personagens semelhantes e uma diferença alentadora: se Obama for eleito, não haverá nenhum conflito trágico, indica a pesquisa CNN/Opinion Research: entre os eleitores consultados, 54% dos negros e 65% dos brancos disseram que o país está preparado para um presidente negro.
Lobato demorou apenas três semanas escrevendo ''O Presidente Negro'' ou ''O Choque das Raças'' (''romance americano do ano 2228''), em 1926, para ser publicado no rodapé do jornal ''A Manhã'', no Rio de Janeiro. Com situações tragicômicas, é o seu único romance e, como H. G. Wells, ''talvez não tenha imaginado coisas, e sim apenas antecipado coisas'', diz a nota dos editores na 13 edição (1979). O escritor pretendia traduzir para o inglês e vendê-lo nos Estados Unidos, onde assumiria, em 1927, o cargo de adido comercial brasileiro em Nova York.
Nos Estados Unidos de 2228, segundo a imaginação de Lobato, a população negra (atualmente, representa 12% de 300 milhões de habitantes) cresceu extraordinariamente, chegando a 108 milhões, metade dos brancos (206 milhões). Divide-se a raça branca entre o Partido Masculino e o Partido Feminino, este apregoando que a mulher, em ''época recuadíssima'', não era a fêmea natural do homem, que a tirou de ''um outro mamífero de vagas semelhanças anatômicas'', um ''sabino'' aquático. ''Desmascarada a simbiose'', a mulher será autônoma, o status quo sexual com o ''gorila'' é apenas provisório.
Surgia, além do aspecto étnico, o ''conflito das duas espécies de mamíferos, Homo e Sabinas''. Cindido o eleitorado branco, ''vai funcionar a massa negra como o fiel da balança dos destinos da América'', sentencia o presidente Kerlog, aspirante à reeleição. Sem o apoio da Associação Negra, liderada pelo genial Jim Roy, o Partido Masculino não se manterá no poder e o Feminino não o conquistará. O desfecho é a ascensão negra - o 88º presidente - e a surpreendente consequência por ''razões da raça branca''.
São coisas semelhantes, na atualidade, a concorrência restrita aos Partidos Democrata e Republicano, os seus pré-candidatos brancos, Hillary Clinton e John McCain, respectivamente, e o negro democrata, Barack Obama. Observa-se que a discriminação racial e feminista tem sido apenas incidental, suscitada pelos eleitores, e não uma bandeira dos candidatos.


