A FOLHA foi até a Vila Trindade, que é dividida por uma linha de trem com a Vila Autódromo. A região é considerada como a mais violenta do Cajuru. Morador do bairro há anos, o catador de papel Cezinando dos Santos, de 56 anos, contou que tem sido vítima constante dos tiroteios. A casa fica de esquina e perto da linha de trem. Não são raros os casos de ''balas perdidas'' que acabam entrando para dentro da casa do pedreiro.
''Do jeito que eles se encontram, eles atiram. Um dia a bala entrou para dentro da minha casa e quase matou meu neto. A bala pegou raspando. É um perigo. Hoje em dia, quando escuto algo eu grito e todo mundo deita no chão. A gente tem medo, mas não tem para onde ir. Tem que morar aqui mesmo e respeitar os grupos. Chega 18h30, a gente entra em casa e não fica perto da linha de trem. Se a gente pára na linha, é possível morrer. Os grupos acham que estão sendo espionados e atiram mesmo. Não tem idade. Os cabeças são mais velhos, os outros adolescentes. As brigas são sempre por espaço. A gente não se mete e confia em Deus para ter sossego'', disse o catador.
A cozinheira Tereza de Almeida, de 55 anos, é evangélica. Ela diz que segura nas mãos de Deus para evitar olhar a violência do bairro. ''Eu faço a minha parte. Fico em casa e não saio à noite sem ter necessidade. Aqui, depende muito de como você age. Por isso, procuro ficar tranquila e peço a Deus que proteja minha casa e minha família'', afirmou.
A dona de casa Jordina Gonçalves, de 65 anos, conta que a violência no bairro não a incomoda. ''Entre os grupos dá muita briga, mas eu fico sempre dentro de casa na hora dos tiroteios. A gente tem que se cuidar. Não dá para facilitar. Mas já estou acostumada. A gente sabe aqui que não tem hora, nem dia. Depende deles lá. O jeito é não se intrometer''. Jordina veio de Ivaiporã (Norte do Paraná) e mora em Curitiba há 15 anos. Ela morou antes no Parolim - onde a violência e as brigas entre os grupos, também seriam constantes.
Neire e Nilda são Testemunhas de Jeová e atravessam as vilas sem serem abordadas pelos grupos por causa do trabalho religioso que desenvolvem. ''Eles respeitam o nosso trabalho'', explicou Neire. Elas contam que a violência no bairro é assustadora. ''Quando a gente vê alguma coisa, a gente corre. Até para não sobrar tiros. Conhecemos todo mundo'', reforçou a voluntária.
Nilda relatou que quase teve um infarto estes dias num tiroteio. Alguém gritou para que ela corresse porque iria começar um tiroteio. ''Vi que a polícia estava chegando. A linha de repente ficou repleta de pessoas. Corri. O tiroteio era para o lado que eu estava indo. Tive que correr para o lado contrário. Os policiais estavaM de moto atirando e os meninos em cavalos. Foi um aperto feio. Pensei que iria morrer'', contou.
O problema na região, segundo elas, é droga. ''Aqui, eles brigam por território e por espaço para venda de drogas. Eles não querem um grupo perto do outro. Por isso que dá tanta briga e tanta morte'', salientou Neire. (L.P.)

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