Você se lembra do sonho que teve na noite passada? Se a resposta for sim, saiba que ele pode lhe dizer muitas coisas. Mas, caso você chegue à conclusão de que não sonha há alguns dias ou meses, informamos que você não só sonhou, como teve, no mínimo, seis sonhos por noite.
Baseado no estudo do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, os sonhos, além de reveladores de desejos ocultos, são também ferramenta da psique, que busca o equilíbrio por meio da compensação. Ou seja, alguém masculinizado pode sonhar com figuras femininas que tentam demonstrar ao sonhador a necessidade de uma mudança de atitude.
Na busca pelo equilíbrio, personagens arquetípicas interagem nos sonhos em um conflito que busca levar ao consciente conteúdos do inconsciente. Por exemplo: entre essas personagens, estão a anima (força feminina na psique dos homens), o animus (força masculina na psique das mulheres) e a sombra (força que se alimenta dos aspectos não aceitos de nossa personalidade). Esta última, nos sonhos, são os vilões. Segundo a linha junguiana, é muito importante saber como o sonhador, o protagonista no sonho (que representa o ego) lida com as forças malignas (a sombra), para se averiguar como, na vida desperta, a pessoa lida com as adversidades, a autoridade e a oposição de idéias.
Solução e caminho
Há 22 anos, a psicóloga Sonia Vaz ajuda pessoas a decifrar seus sonhos. Dentro da linha junguiana, sua especialidade desde sempre, define o sonho como ''a linguagem do inconsciente'' e explica que, muito diferente do que escreveu Freud em seu livro ''Interpretação de Sonhos'', que dizia que tudo que sonhamos tem um conteúdo de desejo reprimido, para Jung não é apenas isso. ''O sonho traz também uma solução, ele aponta um caminho, é criador e criativo. No inconsciente não estão apenas coisas reprimidas. Sonho é como se fosse uma fonte de onde brota o novo''.
E acreditem, sonhos também revelam o futuro. A explicação está diretamente ligada às quatro funções que possuímos. São elas: pensamento e sentimento, estes tidos como funções julgadoras e racionais; mas opostas. E a sensação e a intuição, responsáveis pela percepção e tidas como instintivas. ''Todos temos as quatro funções, só que nos adaptamos mais a uma do que a outra. Isso vai de acordo com a nossa história de vida, nossas experiências. A intuição e a sensação estão ligadas ao inconsciente e, quando se fala em instinto, fala-se em inconsciência. O inconsciente sabe muito mais do que a consciência. Essa percepção do que vai acontecer, do que pode acontecer existe, sim! Temos vários relatos sobre isso. Os sonhos avisam! Isso porque o inconsciente sabe de tudo. Para ele tanto faz passado, presente, futuro. Ele manda mensagens independentemente disso'', conta a psicóloga.
Exemplo conhecido do que se relata aqui, são de pensadores e matemáticos como René Descartes e Friedrich August Kekulé von Stradonitz, que tiveram em sonhos visões reveladoras. Em 10 de novembro de 1619, Descartes, em viagem à Alemanha, teve uma visão em sonho de um novo sistema matemático e científico. Kekulé propôs em 1865 a fórmula hexagonal do benzeno, após sonhar com uma cobra que mordia a própria cauda. Também consta na Bíblia e é de grande credibilidade nas religiões judaico-cristãs, que Jacó, José e Daniel receberam de Deus a habilidade de interpretar os sonhos. No Novo Testamento, São José é avisado em sonho pelo anjo Gabriel de que sua esposa traz no ventre uma criança divina, e depois da visita dos Reis Magos um anjo em sonho o avisa para fugir para o Egito e quando seria seguro retornar a Israel. Ah, tem também Thomas Edson, que, para resolver seu problema com a criação do fonógrafo, sonhou com a manivela. Já Paul McCartney sonhou com a melodia de ''Yesterday''.
Sonhos esquecidos
Sonhar faz bem, mesmo que sejam coisas sem lógica ou os desagradáveis pesadelos, isso porque sonhos desse tipo ajudam o ''sonhador'' a lidar com as preocupações da vida. Estudos comprovam que temos de seis a oito sonhos por noite. Só não lembramos de todos, o que seria, uma carga de estresse muito grande. ''Também há a questão da resistência. Quando não queremos ver o que está acontecendo, não lembramos dos sonhos. Estando em processo de negação com alguma realidade, esquecemos. E quando a carga de estresse é grande, o próprio organismo se encarrega de eliminar. Ele produz a homeostase, responsável pelo equilíbrio. O organismo poupa o 'sonhador', mesmo que o sonho seja bom. A censura acontece para que você não tenha mais nenhum conteúdo'', esclarece a especialista.
Diante de tudo isso, como as pessoas poderiam analisar seus sonhos? Somos capazes de fazer isso sozinhos? Segundo Sonia, os sonhos possuem várias facetas. Cada pessoa que se debruçar sobre seu sonho terá uma perspectiva. ''O sonhador vai olhar o sonho dele e interpretá-lo. Vai ter um olhar para aquilo. O interessante de ter um profissional analisando os sonhos é que ele vai dar um outro olhar. Você interpreta dentro dos limites da sua própria visão sobre aquela situação do sonho. Uma pessoa estranha, que não está ali vivendo com ela, não está emocionalmente ligada a todos os fatos, sendo assim, pode ter uma interpretação menos carregada de emoções, pode ver uma outra coisa que ela não verá'', ensina.

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