São Paulo - Aos 80 anos, completados mês passado, o professor Evanildo Bechara segue como um dos maiores combatentes dos preconceitos linguísticos no Brasil. Para ele, o erro e o equívoco só podem envergonhar aqueles que pensam saber muito, mas na realidade nada sabem. Ignorante é quem faz da língua instrumento de humilhação.
Para comemorar a trajetória do mestre gramático e filólogo, atento aos avanços da linguística, as professoras Dieli Vesaro Palma, Maria Mercedes Saraiva Hackerott, Neusa Barbosa Bastos e Rosemeire Leão Silva Faccina organizaram ''Homenagem: 80 Anos de Evanildo Bechara'' (Nova Fronteira, 200 páginas), reunião de entrevista e 11 artigos que focam o seu percurso profissional e teórico.
Diante dos ensinamentos de Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 33), o certo e o errado se relativizam. Além de regras, a língua portuguesa têm variações: a escrita, a falada, a exemplar, a culta, a formal, a informal, etc. O certo, no caso, é ser ''poliglota na própria língua''.
''Hoje existe a idéia errônea de que a pessoa não deve estudar gramática, a preocupação é apenas com a expressão'', ele diz. Não basta só a comunicação, a manifestação linguística deve estar amparada em outros conhecimentos. Aí entra o poliglota na própria língua, que deve ter desde o domínio da escrita de um texto formal até a consciência a respeito de uma conversa com um analfabeto. ''Muita gente pensa que a língua é unitária, homogênea, sem variedades.''
Ocasião faz o falante
Essa coisa que parece óbvia não é simples: a língua deve ser usada de acordo com a vontade efetiva de fazer entender-se. ''O uso reflexivo da língua é um exigência da boa transmissão de idéia.'' E o estudo do idioma é uma obrigação de todos. Quando a Academia Brasileira de Letras foi criada em 1897, nenhum gramático estava em seu seio, ele lembra. A preocupação com especialistas da língua é recente, a provar as eleições de Aurélio Buarque de Holanda, Celso Cunha e Antonio Houaiss, ao qual Bechara sucedeu. ''Agora a língua começou a ser estudada cientificamente na Academia.''
Bechara é o autor da ''Moderna Gramática Portuguesa'' (Lucerna), cuja primeira edição é de 1961 e que, até o fim do ano, vai ser atualizada. Embora tenha incorporado novidades dos estudos linguísticos, como as teorias do romeno Eugenio Coseriu e a distinção entre diacronia e sincronia, proposta pelo francês Ferdinand Saussure, a lição da sua gramática é a mesma em mais de 40 anos: um professor não pode se restringir a ensinar a diferença entre sujeito e predicado. Ele tem de ensinar aos alunos os efeitos da consciência desse saber no uso cotidiano da língua.
O emprego das habilidades linguísticas, Bechara alerta, transita entre os pólos da liberdade e da opressão. Língua é poder. Ou mais do que isso. ''A troca da sua língua é quase igual à troca da sua própria alma, segundo dizia Gaston Paris, um filólogo francês do século 19.'' Um gramático tradicional, mas nunca um purista, Evanildo Bechara preocupa-se com a língua exemplar, a da gramática, cuja fonte, para o filólogo homenageado, está nas obras de escritores consagrados.
Ele afirma continuar forte a idéia de que é possível escrever como se fala. A consequência de tal pressuposto é a valorização da língua falada em detrimento da escrita. Segundo o filólogo, a língua exemplar não pode cair na mão de pessoas despreparadas, que ditam lições inventadas em ''consultórios gramaticais'', como as seções de jornais nas quais se discutem dúvidas elementares, uma forma de preencher as lacunas que os leitores trazem do sistema educacional brasileiro.

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