Mais vale um pássaro na mão do que dois voando - disse aquele que foi pego com a boca na botija. Com as barbas de molho, pensou: agora tomo mais cuidado ao pôr o olho num rabo de saia!
Essa pequena história, contada com a combinação de conhecidas expressões populares, mostra a vitalidade de nosso sistema de linguagem - que permite constantes inovações. Expressões populares são fenômenos mundiais, mas a riqueza da língua portuguesa também se revela desde o início de sua história a partir da criação de incontáveis figuras de linguagem. De tão antigas, as origens de algumas expressões são fonte de controvérsia.
Segundo o professor de Gramática, Dilson Catarino, as expressões populares podem nascer em quaisquer extratos sociais e circunstâncias. Uma das mais clássicas no Brasil é o ''sem eira nem beira''. ''Isso vem lá de Pernambuco, no século XVI. Os moradores de Olinda e Recife tinham o costume de colocar mais uma camada de telha abaixo das telhas normais, e se chamavam eira e beira. Quem não tinha dinheiro para colocar as duas camadas, era chamado de 'sem eira nem beira''', conta Catarino.
Outra expressão citada pelo professor é ''com um olho no peixe e outro no gato'' - que ''significa a capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo'', explica. Para Dilson Catarino, longe de empobrecer a língua, as expressões populares conferem liberdade à comunicação. ''A comunicação nunca é engessada, isso é que é interessante''.
Desgaste
O professor e linguista Reinaldo Mathias Ferreira concorda com o uso das expressões populares ''desde que não sejam de mau gosto''. ''Algumas frases já estão muito desgastadas e devem ser evitadas, como: 'que esta data se repita por muitos e muitos anos'; 'morreu na aurora da vida deixando um mar de saudades'; (e) 'aceite nossos protestos de elevada estima e consideração'''.
Mathias Ferreira explicou que o processo de criação de uma expressão popular parte de uma caso específico para a generalização. ''Primeiro, vem o sentido literal. Depois, pela importância do autor, pela peculiaridade ou pela graça, passa para o figurado. Por exemplo: a vaca foi pro brejo. Em sentido literal, sabemos que a vaca corre perigo, pois geralmente é indefesa no brejo. Em sentido figurado, usamos a expressão para indicar qualquer situação de perigo: quando o empresário examinou as contas, viu que a vaca já tinha ido pro brejo'', contou.
O professor também desaconselha a utilização de expressões bastante usadas no cotidiano, mas que são redundantes. ''Por exemplo, 'tenho certeza absoluta' é um erro, porque se é certeza, está implícita a idéia de absoluta'', explica. Outro equívoco: '''Todos os dias, inclusive sábados e domingos.' Basta dizer 'todos os dias' que sábado e domingo estão subentendidos. Temos ainda a 'surpresa inesperada'. Se não for inesperada, não é surpresa''. (Leia expressões populares de outros países no www.bonde.com.br/folhadelondrina)

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