Inicialmente, as mudanças seriam implantadas em janeiro de 2008, mas o ministro da Educação, Fernando Haddad, declarou, no início deste mês, que o prazo previsto provavelmente não seria mais cumprido. Na última sexta-feira, o presidente da Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), Godofredo de Oliveira Neto, comentou que o acordo pode ficar no papel (veja box).
De qualquer forma, a reforma ortográfica da língua portuguesa, que está em discussão desde 1986, é fonte, até hoje, de discórdia entre professores e estudiosos da linguística. O objetivo da mudança é unificar a grafia utilizada na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) - Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Serra Leoa, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste. No Brasil, a reforma alcançaria 0,45% das palavras.
As principais alterações previstas incluem a extinção da trema, de alguns acentos agudos, circunflexos e diferenciais, e a inclusão de três novas letras ao alfabeto (k, w e y). A reforma não atinge o significado das palavras (semântica) e a estrutura das orações (sintaxe).
Português fluente - O português é falado por aproximadamente 400 milhões de pessoas, das quais 180 milhões no Brasil. É considerada a terceira língua mais difundida no ocidente, e a oitava no mundo.
O escritor e professor aposentado de Pedagogia da Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Reinaldo Ferreira Mathias, considera a reforma dispensável.''As mudanças são inadequadas porque vão tumultuar a escrita e desatualizar todos os livros e bibliotecas'', afirmou. ''Na escola pública, por exemplo, um livro deve passar de um aluno para outro durante três anos. Como vai ficar em 2008, quando juntar os novos livros e os que estarão desatualizados? Vai ser aquela confusão''.
De acordo com Mathias, em alguns itens, a mudança carece de lógica. ''Por exemplo, vão tirar o acento agudo em palavras que tem éi e ói (como assembléia e constrói), mas o éu continua igual (como chapéu). Parece que não pensaram nisso''.
Outra crítica do professor refere-se à amplitude da reforma. ''Se for para pensar em mudança, então deveriam fazer tudo de uma vez, e não mexer em meia dúzia de acentos. As proparoxítonas, por exemplo, que são todas acentuadas, poderiam perder o acento de uma vez. E nem mexeram com elas''.
Para Reinaldo Mathias, em vez de se discutir reforma ortográfica, o país deveria investir na melhoria da qualidade de ensino. ''Acho que os recursos (para reimpressão de livros) poderiam ser usados na melhoria do ensino e capacitação dos professores. Não é com mudança na ortografia que vamos estimular a independência do país''.
Discussão de 20 anos - Entendimento oposto tem o professor de Filologia e Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Manoel Messias Alves da Silva, que considera a reforma adequada e oportuna. Segundo ele, o tema é fruto de uma discussão de 20 anos que visa alavancar o mercado editorial brasileiro. ''A idéia foi lançada por Antônio Houaiss para unificar a língua no Brasil e Portugal, com vistas a criar um mercado editorial forte''.
Questionado se o pano de fundo da discussão é o interessse econômico das editoras, o professor não tergiversou. ''Não há razão para que os brasileiros não levem em conta a questão econômica. No mundo inteiro se pensa assim, por que teríamos de ser diferentes?'', questionou. ''Nos EUA, o livro do Harry Potter tem milhões de exemplares. No Brasil, os livros que saem com 5 mil exemplares estão no ganho. Podemos ampliar o mercado de 180 milhões de leitores (no Brasil) para 400 milhões (da CPLP). Não devemos ter vergonha de falar nisso''.
O professor Manoel Messias disse também que a reforma tem a vantagem de preservar as peculiaridades regionais - como a flexibilidade do uso de acentos agudos e circunflexos no Brasil e Portugal (econômico e económico). Além disso, o filólogo acredita que a mudança das regras não causará confusão porque não foi estabelecido ''um limite de data para a mudança''.

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