Limite para a vaidade faz bem à saúde
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sábado, 11 de outubro de 2008
Vera Fiori<br> Agência Estado 
São Paulo - Um dos sete pecados capitais, a vaidade, é também um vespeiro. Que o diga o cinquentão Michael Jackson, beauty victim sem precedentes na história do bisturi, e nossas celebridades instantâneas, como a mulher-melancia, mulher-melão, mulher-moranguinho e a mulher-maçã, abacaxis estéticos que perseguem a fama a qualquer preço.
''Estas celebridades são absolutamente passageiras e não chegam a deixar marcas. Por outro lado, propagam a idéia de que o sucesso está sempre atrelado à exposição do corpo, ainda que seja pela via do riso, do ridículo'', opina Niraldo de Oliveira Santos, psicanalista da Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas e coordenador do curso de especialização em transtornos alimentares e obesidade do Centro de Estudos em Psicologia da Saúde (CEPSIC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Mas quando a vaidade ultrapassa os limites, é outra história. Transformar o corpo em um rascunho passível de ser corrigido/modificado aponta para o que a psiquiatria tem chamado de dismorfia corporal ou transtorno dismórfico corporal, termo que diz respeito a uma preocupação excessiva com algo relacionado ao corpo ou imagem. A preocupação obsessiva, seja com rugas na face, com o tamanho do nariz ou com a calvície, por exemplo, torna-se motivo de grandes prejuízos, comprometendo relacionamentos interpessoais em diversos níveis, podendo levar a inibições na vida amorosa, no trabalho, na escola. Achar defeitos em tudo o que vê em si é, em grande parte, consequência de uma insatisfação em outros âmbitos e, geralmente, está associado a condições depressivas.
Promovida a bem de consumo, hoje a cirurgia plástica é acessível (pode até ser parcelada), o que aumenta a procura por tais intervenções. Salvo comportamentos compulsivos (não só na estética, como na comida, no consumo), cuidar do corpo tem um viés positivo, como fala o psicanalista: ''Devemos considerar a possibilidade de fazer cirurgias estéticas como um ganho, um avanço da ciência em relação à decadência natural do corpo. Com o crescente aumento da expectativa de vida do brasileiro, é esperado que estes cuidados ou procedimentos cresçam ainda mais e, como todo modo de satisfação disponível no mundo, não podemos culpar o objeto de prazer, mas sim a maneira como alguns fazem uso dele''.
Porém, como lembra o especialista, não se deve esperar que a beleza seja o remédio para todos os males. ''Costuma-se associar o sucesso financeiro a um corpo magro, ágil e produtivo. A mídia pode veicular a noção equivocada de que a administração do corpo (ser magro, por exemplo) é o ''cartão de visitas'' que garante a felicidade no amor e na profissão, incondicionalmente.''
Se em terras tropicais o corpo jovem e sarado é passaporte para a fama, aceitação social e auto-estima, na Suécia nossas suculentas mulheres frutas seriam um fiasco. Segundo a dermatologista Ligia Kogos, que atende a rainha Silvia, é costume local seguir à risca o ditado que diz que mulher é como vinho. ''Os suecos encaram com naturalidade a perda dos atrativos físicos a partir dos 35 anos. Curiosamente, no país onde é fabricado o preenchedor Restylane, os dermatologistas são comedidíssimos nos tratamentos, mesmo quando se trata do rosto de uma mulher de 70 anos.''
No caso das celebridades brazucas que disputam o maior bumbum, o maior peito, a maior boca, o risco é de as pessoas do outro lado da telinha se espelharem nas Vênus turbinadas. ''A TV é o nosso Oráculo de Delfos. Através dela, os leigos recebem informações, muitas vezes distorcidas, sobre cirurgias e outros procedimentos estéticos.'' Segundo Ligia, a culpa dos excessos é do médico, e não do paciente. ''Se Monalisa viesse ao meu consultório, aumentaria os lábios dela. Mas, por outro lado, não serão os lábios finos que a fazem ser Monalisa? Por isso, cabe ao médico ponderar, apontar o que é seguro e que pode ser caricato.''
A dermatologista lembra que a vaidade é como um termômetro emocional. ''O primeiro sinal da depressão é o abandono dos cuidados com a aparência. Do lado extremo, quando aparência vira uma idéia fixa, a vaidade tem o efeito de uma droga.''


