Moluscos, crustáceos, sal marinho




O vento sopra um ar salgado vindo do mar - ar marinho que amarga a boca: beijo você com esse gosto, com a língua de molusco, sorvo o molusco do meio das tuas pernas, tua concha, tuas pérolas. Meus braços são como as ventosas de tentáculos de polvos; teu corpo é um navio naufragado.
O que te sinto é vento que traz areia - ar marítimo que cega os olhos: areia que suja a casa, que mata o monstro, que gruda em teus cabelos dourados de luz. A maresia vem trazida pelo vento gelado, mesmo com sol. Ela influencia as ondas de rádio, mofa as roupas no armário, destrói as grades que proíbem teu corpo.
Do mar que sopra vento e sal chegam os piratas. Naus os trazem, maus (olhos de vidro, pernas de pau). Saqueio teu rosto como os piratas ao tesouro. Tomo vinho em barris, como carne vermelha crua. Te ameaço com meu ferro; te amarro ao pé do coqueiro com cordas e nós aprendidos de um marujo que não se prende a terra alguma. Lembre-se: quem dá adeus rouba dos pobres.
Os pescadores arrancam as cabeças de camarão com os dedos. Os marinheiros se despedem das sereias com um beijo apaixonado: nunca mais se verão. Os caranguejos ainda tentam beliscar a mão do homem antes de serem capturados. Você não enxerga, mas estes são símbolos da crueldade que se dão invariavelmente todos os dias.
Também o são navios pesqueiros quando atracam no cais. Toneladas de peixes fedendo são descarregados das redes. Essa é a comida de milhares; você é meu alimento. Nos cascos de embarcações atracadas ficam grudadas algas verdes, conchas sem valor, parasitas marinhos, pequenos moluscos, grandes crustáceos, corais arrancados, anéis de lulas esquartejadas, pernas de polvos decepados, pedaços de pinças de siri; cetáceos gigantes rodeiam os cascos, invisíveis.
O sol doura minha pele de mouro. Os raios penetram em meus olhos, no teu sexo, no fundo do oceano. Eu mastigo essa luz como se ela fosse a força que sai de você. Esse sol seca tudo o que é molhado, mas a pele do teu braço ainda tem gosto de sal, quando o lambo. Tudo é superficialmente amarelo e profundamente azul.
Por fim, as ondas sopram um vento que derruba cabeças de santos. As imagens caem no chão e se quebram (as cabeças rolam antes de se partirem): tudo se quebra e não resta nada na velha igreja litorânea, à beira da praia - só um cão sarnento, magrelo, fumando do lado de fora.

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