Acho que quase nenhuma mulher da minha geração foi criada para ser Amélia. Deve haver exceções, mas eu não conheço nenhuma. Nem mesmo uma amiga sequer diz que foi educada para servir o marido, criar os filhos e, ainda por cima, se satisfazer com "apenas" essas tarefas.
Até aí, nada novo. Acho que uma geração um pouco acima da minha já viveu essa realidade. Mulher que não frequenta faculdade, seja pelo motivo que for, trabalha. Mesmo aquelas que abandonam o mundo laboral após o nascimento dos filhos, dá um jeito de voltar logo que pode. E mesmo nessa fase, põe o marido para executar tarefas domésticas. Nem que seja colocar a mesa antes do jantar.
Mas o que tenho reparado mais ultimamente, na fase das amigas decidirem mudar o estado civil no cartório, é que, além de não serem Amélias, elas não conhecem nada do que envolve cuidar de uma casa. Nada mesmo. Dizem não saber cozinhar e nem mesmo como se lava roupa.
Que esses não sejam aprendizados voluntários das moçoilas, dá para entender. Quem gostava de perder tempo nas poucas horas vagas entre escola, balé, curso de inglês, voleibol, shopping e televisão, para descobrir as artes domésticas?
Mas, o que me intriga é que, aparentemente, as mães prendadas também não fizeram muita questão de transmitir todo o seu conhecimento para as descendentes. Nunca fomos (aqui me incluo) incentivadas, nem cobradas a saber isso.
Isso me fez pensar: será que nossas mães planejaram essa revolta silenciosa das Amélias, garantindo que as gerações futuras de moças nem mesmo conhecesse esse lado, que um dia já foi obrigação, e até dote, feminina? Será que foi tudo proposital?
Se sim, ou não, quero parabenizá-las. Primeiro por ser a primeira revolução ideológica que realmente deu certo. Segundo por ter acontecido em um prazo até que pequeno. Terceiro porque sou fruto dessa revolução. Então: parabéns e obrigada!

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