LIGEIRASSSSSS - HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de abril de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br>Equipe da Folha 
Calça de lycra azul, justinha. Blusinha curta para o piercing no umbigo ficar à mostra. Cabelo alisado graças a químicas capazes de causar mutações genéticas. De longe a moça passa por uma jovem de 20 anos, roupa despojada, vontade de se mostrar sexy. De perto, trata-se de uma senhora de 35 anos, Virgínia. Casada, sem filhos, gosta de estar entre os mais jovens, a tia legal, permissiva.
Com o carrinho usado pago a prestações, Virgínia segue nervosa para o centro. Avisa as amigas: é hoje. Vai encontrar com o gatinho que conheceu no Orkut. Papo-vai, papo-vem, rolou um "tenho que te conhecer" urgente. "Não sei no que vai dar", disfarça.
Não se trata de trair o marido, diz ela. Marcelo, um homem alto, meio sistemático, com quem ela mora há anos, mas nunca oficializou a união, "dá conta do recado", afirma. "Mas às vezes a gente quer carne nova, né?"
A "carne nova" em questão é um garotão, 25 anos, moreno, metido a saradão. Durante meses os dois trocaram e-mails cheios de insinuações e provocações. Ela mandou ao moço uma foto com pose de calendário. Virgínia, de biquíni, sobre uma pedra em um rio da região, fazendo biquinho para a câmera.
Já o garotão apresentou uma foto na qual aparece de bermuda e sem camisa, com boné e óculos escuros, posando em frente a moto CG e um Passat tunado ao fundo. "Eu e minhas máquinas", diz a legenda.
Virgínia é conhecida entre as amigas por falar de sexo como quem conta que encontrou uma promoção no supermercado.
Enquanto Virgínia e o garotão se correspondiam, em casa o clima era menos sensual. Com dois financiamentos de carro para pagar e um empréstimo consignado do Itaú que não tem hora para terminar, as coisas andavam apertadas. Quando o celular de Virgínia toca, ela não atende. Sabe que é a financeira perguntando quando a prestação dos carros será paga.
O dinheiro que pegaram no Itaú era para ajudar a colocar as contas em dia, mas parte foi transformada num Playstation III e uma televisão de plasma desproporcional ao tamanho da sala do apartamento de 60 metros quadrados que os dois compraram graças a um financiamento da Caixa Econômica Federal e cujas prestações também já começam a se acumular.
Nos últimos meses, entre horas intermináveis de trabalho e os fins de semana gastos para ajudar a sogra, mãe de Marcelo, a "dar um jeito na casa" - já que a pensão dela não está dando para nada e o filho não consegue dizer para a mãe que sua situação financeira não é das melhores - a única coisa sendo "usada" no lar do casal é o Playstation.
No caminho para o encontro, Virgínia, distraída, arranca antes do tempo e bate contra um ônibus. Batida leve, sem grandes danos materiais. Liga do orelhão para o marido. Em seguida, para a seguradora. E volta para casa a tempo de colocar mais uma carga de roupa suja para lavar.
No outro dia, diante das amigas ansiosas para saber o resultado da aventura, ela conta o desfecho inesperado. E diz que vai esperar para remarcar o encontro, já que sem carro toda a logística da coisa fica prejudicada. Mas no fim, decreta, conclui que ficou no lucro. "Quem sabe com o dinheiro do seguro finalmente me livro do financiamento?". Não custa nada ver sempre o lado bom das coisas.


