LIGEIRASSSSSS - HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de abril de 2009
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
A história é verdade. Na bilheteria, o rapaz com a camiseta cafona com o logotipo cafona do Festival de Curitiba - que estranhamente não traz a palavra "teatro" em seu nome (a mim não me importa se traz ou não) - se assustou com o homem monstruoso em sua frente. Não que a gordura do homem gordo o transformasse em monstro e nem sua monstruosidade gorda fosse o motivo do susto - não fora um susto apavorado ou estético. O motivo do abismo boquiaberto do vendedor de ingresso para o Festival de Curitiba (que estranhamente não traz a palavra "teatro", mas tanto faz) foi a quantidade de ingressos comprados pelo homem gordo prostrado em sua frente.
Pagou no cartão de crédito com o desconto do banco e saiu balançando discretamente os braços redondos - na verdade, seu tamanho não permitiria movimentos que não aqueles. O homem que vendera os ingressos ainda fixou o olhar nos dedos roliços, as juntos ocultas, que segurava os ingressos - quantos? isso não podemos saber. Depois ainda viu uma faixa preta de gordura sob pescoço do monstro, que desapareceu na escada rolante.
Ainda abismado, o vendedor calculou que ele comprara ingressos para todas as peças de teatro que uma única pessoa poderia assistir. De fato, fora isso mesmo - e isso é o máximo que podemos saber. Os motivos que resultaram na grande compra - paixão pelo teatro? tara por canelas magras das atrizes? tesão por barbas de homem crescendo? compra para amigos, família? - ah, isso não podemos ter certeza.
Dos 300 espetáculos, o gordo de dedos roliços compareceu em vários deles - quantos? não é necessário dizer que não sabemos. Em todos suou debaixo dos braços; nas dobras superior e traseira das articulações dos cotovelos e dos joelhos; na enorme papada; atrás da orelha; na testa, logo acima das sobrancelhas; nas dobras do bucho; embaixo do nariz, sobre o lábio superior, formando um bigodinho de suor; no rego. Não nos será difícil imaginar que a fera sentiu falta do inverno e que até praguejaria contra o calor se não fosse homem conformado.
Saindo dos espetáculos, também não pensou que Shakespeare talvez fosse mesmo gênio para que conseguisse perpetuar a eterna tragédia anunciada que é uma peça de teatro. Nenhum espetáculo marcou a vida do besta-fera. Sua presença, no entanto, marcou a vida daqueles que sentaram próximos (ou nem tanto) dele. O grande gordo roncou, invariavelmente, em todas as peças. O barulho que saía dele - e que parecia exalar mais dos póros que das cavidades nasais - disputava espaço com os pobres atores, que lutavam para parecer convincentes (ou menos ruins que de fato eram). A razão do homem comprar entrada para um sem número de espetáculos e dormir, religiosamente, em todos eles? Isso não saberemos nunca.
Pobre de nós. Ainda bem que não montaram "Esperando Godot", o mais importante texto já escrito no breve século XX.


