LIGEIRAS
Não suportava comida japonesa. Hoje, adoro. Também não comia brócolis, nem amarrada. Agora, se não tem na feira ou no mercado, passo vontade. Chá indiano, aquele com leite, então, eu achava simplesmente horrível. Hoje coleciono variações de receitas da bebida e tomo quase toda semana. Achava churrasco o máximo. Ultimamente, torço o nariz.
Quando criança, não gostava de tomar sol. Não tinha paciência. Agora - justo quando a camada de ozônio foi pro espaço -, adoro. Balé e piano, que estudei por anos a fio, eram uma obrigação, um suplício. Ia para as aulas pensando no final de semana, quando finalmente faria o que gostava: corridas a cavalo e nadar no rio. Hoje, sinto muita falta do piano. Do balé, confesso que não muita.
Dos 11 aos 14 anos, jogava tênis praticamente todas as tardes e hoje não tenho paciência para assistir nem um game. Minha raquete junta poeira num canto. E a prancha faz companhia.
A prateleira de CDs, então, é mais eclética que guarda-roupa de teatro. Tem de tudo, e de tudo gosto um pouco, conforme o momento.
Minhas vontades mudaram, viraram de cabeça para baixo. Como pode um negócio desses? Onde foi parar minha coerência? Meus valores? Todo o castelo de cartas que construí com tanto esforço para ser uma pessoa ''normal'' caiu. Derramei minhas idéias pré-fabricadas ao longo dos anos e de repente me dei conta que eu não me conheço. Sim, na minha adolescência a psicóloga já havia me provado isso. ''Nós não nos conhecemos'', repetia. ''As pessoas precisam aprender a se conhecer'', emendava.
Mesmo aprendendo, a pessoa com quem convivo muda o tempo todo. É realmente trabalhoso. E muito divertido.
Então, muito prazer em conhecê-la, estranha. Posso oferecer um Rioja ou você subitamente mudou para a Coca Cola zero?





