LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de agosto de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Há alguns anos, quando eu tinha tempo para isso, não imaginaria nunca a possibilidade de ver a exposição de um cânone: vivia no interior, não tinha dinheiro (mas de memória, parece-me que era feliz). Agora, os ingressos estão comprados e o show de João Gilberto, em São Paulo, é praticamente uma realidade. No mesmo local, só que horas antes, vou ver uma retrospectiva da obra de Duchamp. Há alguns anos, quando eu tinha tempo para isso, não sei qual seria minha reação diante de tais possibilidades, principalmente ver Duchamp - mas as imagino.
Provavelmente sonharia longamente com o mesmo Duchamp que eu via nos livros de literatura do segundo grau. Só diante da possibilidade de tais sonhos eu tremeria, como a concretização desses devaneios juvenis. Eu esperaria o momento de adentrar a sala como que vivendo anteriormente e já aquela emoção antes de que sucedesse. Viveria-as em formas cambiantes: com choro, com alegria, com assombro, com deslumbre. Já não tenho mais esses sonhos.
Hoje tenho sonhos de homem. Sonho coisas concretas: um copo de água, um dia de sol, uma conta bancária gorda, um pouco menos de dor. A segurança de que vou ouvir João Gilberto cantar se aproxima mais do que sou hoje que aquilo que eu era e que se perdeu - o mesmo aconteceu com a arte moderna no momento em que Duchamp criava sua história. (Reconheço os dois como homens modernos).
No momento em que vivo essas duas possibilidades - ouvir João Gilberto cantar e ver a retrospectiva de Duchamp -, leio um pequeno livro de Umberto Eco sobre teorias literárias. Sobre o deleite na demora da narrativa, Eco escreve, valendo-se da ''Divina Comédia'', de Dante: ''E para sentir essa emoção, com sua interminável demora, é necessária a longa viagem que a precede. Trata-se, porém, de demoras nas quais não se perde tempo: enquanto aguardamos um encontro que pode se dissolver num silêncio deslumbrante, aprendemos um bocado sobre o mundo - o que, afinal de contas, é a melhor coisa que pode nos acontecer nessa vida''. Leio estas palavras com emoção e, contra todas minhas convicções, acredito que nada acontece por acaso.


