LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Putz grila, bem agora daria certo. Quando o Carlos empenhava a palavra, era coisa direita. E, pela primeira vez, prometeu que largaria a megera, o verdadeiro cão chupando manga que era a esposa dele. Para você ter uma idéia, a primeira coisa que ela fez foi ir até o escritório e apagar todos os contatos do computador. Tudo para que não pudessem me avisar. A desgraçada, que nem gostar dele gostava, tinha medo que eu abocanhasse a herança. E eu, Tatiele, pobrezinha, só queria o seu amor.
Acabei sabendo da pior maneira possível. A Tatiana, vizinha de porta, me trouxe o jornal do dia como se carregasse no colo um bebê morto. Não disse uma palavra. Entregou-me o diário com olhar solene e, suavemente, deu no pé. O recado para mim estava na capa e em formato de manchete. ''Arquiteto morre de infarto fulminante aos 42.'' O texto abria dizendo que a família chorava na despedida do jovem talento. Imediatamente me lembrei de um capítulo da novela e me senti como a personagem, uma noiva abandonada no altar.
Drudi veio me consolar e acabamos juntos pela noite. Só dei conta da bobagem tamanha no café da manhã quando ele comentou como se fizesse piada. ''Dia bonito, com a mulher da vida ao lado e o adversário debaixo da terra.'' Sai para lá assombração, pensei. E decidi ficar sozinha.
Homem que é mala ou que entra na casa da gente só com o trapo de roupa debaixo do braço não vale. Tem que ser um completo. Modelo dois ponto zero. Minha psicóloga falou que errei ao não esperar o tempo de chorar. Minha preocupação é outra. Penso que já passaram as três chances de amar nesta vida. O que, pela contagem do universo, alcançou o limite.


