Se estivesse viva, o cachorro Timoléon Lisavieta gostaria de receber na cabeça um carinho do Sr. Almeida. Mas ele nunca faria. Não gostava de cebola e tinha pavor de cachorro. Tinha mesmo de Timoléon Lisavieta, um cachorro de cabecinha miúda.
Este cachorro, Timoléon Lisavieta, não tinha raça. Era, na verdade, uma cadela. Tinha cabeça pequena e corpo roliço que lembravam homem. Gostava de, em dias frios, se deitar no sol de barriga para cima, com as tetinhas apontando para o céu.
Na casa do Senhor Almeida demoraram muito para perceber, aliás, que eram tetinhas. Pensaram, quando Timoléon Lisavieta chegou ainda sem pêlos, que eram bolinhas de sebo na barriguinha cheia de pintinhas pretas. O engano fez com que Timoléon Lisavieta ganhasse o nome masculino e o sobrenome feminino. O sobrenome foi exigência de Almeida, sob ameaças de que, se o cachorro não tivesse o nome da mulher russa, ele não o sustentaria.
O erro do nome, mais que do sobrenome (finalmente o Almeida tinha razão), acabou por confundir a cabeça miúda e o corpinho roliço de Timoléon Lisavieta. Era uma cadela de sexualidade confusa. Não conseguia manter relações sexuais com cães machos. As únicas três vezes que deu cria - 12 cachorrinhos e cadelinhas ao todo - foi em virtude de gravidez psicológica. Todos os filhotinhos morreram antes de nascer.
Quando andava, Timoléon Lisavieta não sabia se rebolava, bunda gordinha, ou se mantinha coração de leão, dentes afiados. Às vezes, de tão confusa, afiava a bundinha e rebolava os dentes. Para muitos poderia ser até engraçado, mas na casa do Senhor Almeida ninguém ria de Timoléon Lisavieta.
Morreu quando atiraram o pau no gato, mas que por acidente pegou em Timoléon Lisavieta. Ela até tentou correr. Não conseguiu e não uivou. Foi em um dia de sol, no canto de um muro, perto de uma de samambaia que ficava no chão. Foi uma cena bonita. Sem dor.

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