LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Ellen Taborda<br> Equipe da Folha 
''Eu sei onde você pode fazer ótimos cursos de crochê e tricô'', dizia a mulher sentada ao meu lado no ônibus. Era uma senhora de cabelo bem grisalho, que trajava um vestido florido e usava um chapéu tipo Panamá, todo delicado.
Educadamente, respondi que não tinha interesse nesse tipo de passatempo. Mas parece que a minha resposta não agradou muito à senhora. ''É por causa disto'', dizia a mulher aumentando o tom da voz enquanto apontava a minha pasta da faculdade, ''é isto que está tirando o emprego dos homens''.
Totalmente embaraçada, eu olhava para os passageiros que estavam de pé no ônibus, esperando que alguém pudesse me socorrer. Como eu estava sentada ao lado da janela, ficaria meio complicado simplesmente levantar-me e sair correndo.
E a mulher não parava de disparar impropérios contra mim: ''Por causa disto (ainda a minha pasta) é que os homens acabam virando bandidos, pois não conseguem emprego''. Ela estava tão nervosa, que cheguei a pensar que iria levar umas ''sombrinhadas'' na cabeça. Rostos, entre divertidos e assustados, olhavam para mim esperando alguma reação.
De tão surpresa com o discurso machista exasperado daquela senhora, eu não consegui sequer esboçar uma resposta. Ouvi tudo, de boca aberta, é claro, desejando ter aprendido alguma mágica que me fizesse sumir daquele ônibus.
O suplício, que parecia não ter fim, acabou quando a mulher desceu alguns pontos depois. Recebi alguns comentários de apoio e finalmente saltei do ônibus, carregando a minha pasta para a faculdade, de onde saí, alguns anos depois para ''pegar a vaga'' de algum homem no mercado de trabalho. O crochê e o tricô vão ficar para a aposentadoria!


