Tenho pena do Francisco, um amigo meu que está ‘‘em busca de novas oportunidades’’. Casado, tem dois filhos e muitas, muitas contas para pagar e ainda tem que se submeter a cada situação curiosa. Outro dia foi chamado para uma entrevista. Papo vai, papo vem, pediram para ele preencher uma questionário. ‘‘Era para definir o perfil psicológico do candidato’’, conta. Mais de 100 questões sobre temas que iam de preferências gastronômicas a opiniões sobre questões, digamos, mais íntimas.
  Francisco foi aprovado para a próxima fase. Chegou para a segunda entrevista. Bem-vestido, dados sobre a empresa na ponta da língua, discurso sobre sua atuação profissional prontinho. E o que entrevistador pergunta? O que ele faria se o caixa automático da empresa estivesse distribuindo notas de R$ 50? Francisco, coitado, respondeu: avisaria o banco. Não foi contratado.
  No dia seguinte, em outra empresa, foi submetido à temida ‘‘dinâmica de grupo’’. A missão: decidir qual, entre os personagens de uma historinha, tinha razão. Francisco escolheu a velhinha caolha e se deu mal. Não foi chamado. Mais uma dinâmica de grupo, dessa vez numa ‘‘empresa anônima’’. ‘‘Tive que contar a história da minha vida usando pedaços de papel’’, diz, desanimado. Foi aprovado na tarefa, mas barrado pelo departamento pessoal. ‘‘Viram que estou no SPC’’, explica.
  Desanimado, foi para outra entrevista de emprego, numa agência de recursos humanos. ‘‘Me disseram que sou qualificado demais, mas que por R$ 200 podiam reescrever meu currículo’’, comenta. Francisco não tem R$ 200, afinal está desempregado. E procurar emprego é uma empreitada dispendiosa. ‘‘Nunca trabalhei tanto em minha vida’’, conclui.

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