LIGEIRAS
Não importa o boteco, a esquina, o bairro, a cidade, a cara do interlocutor ou seus olhos apertados: todo mundo sabe um pouco de Curitiba. Todos têm o que ensinar: como se proteger do frio, qual roupa usar, como escapar de bala perdida, como é o fraseado do sotaque, como fugir de marginal de periferia ou do alto escalão, como não pegar a chuva, a garoa, o calor que faz a tarde e que se torna frio com o crespúsculo e etc. e uma bula de remédio interminável. Na fala do mundo, a cidade parece, isso sim, ser só clima (e um pouco de violência). Deus primeiro criou o frio e depois Curitiba (a observação é demasiada perspicaz - mas como não poderia deixar de ser, óbvia).
Gosto desse cuidado que, sei, não é exclusivo a mim ou a minha solidão fecunda. Mesmo assim, gosto de fabricar isso. Meu maior prazer nesses dias, aliás, é repetir a fala Eu não sou daqui. Defesa, mas também a tentativa de enxertar nas pessoas um pouco de piedade - e se sobrar piedade, Deus, tenha piedade de mim, diz o poema.
Eu que não sei de nada, não imagino de onde venha essa relação com Curitiba (ou de Curitiba com o humano). Basta tocar no nome da cidade, contudo, e os Jardins Suspensos da Babilônia vêm ao chão. Eu não. Eu que não sei de nada nunca tinha pensado na cidade até colocar os pés nela (e no primero momento a achei muito feia e achei que seria incapaz de viver aqui, aumentando ainda mais a saudade da Bahia; síndrome de retirante).
Não tenho nenhuma memória de Curitiba antes de um mês atrás. Parece que ainda conheço mais Londres - seus bares, suas manias, suas ruelas - do que Curitiba, sem nunca ter tido a possibilidade de colocar os pés na terra de Dickens. E se não me engano, não há quem não seja curitibano no que diz respeito ao conhecimento da cidade.
De Curitiba, todo mundo conhece. Ninguém sabe, por exemplo, de São Paulo (beijo, Bella) ou Recife (beijo, Ju) ou Maringá (beijo enorme, Tereza!), mas de Curitiba todo mundo sabe um pouco, até quem nunca pisou nesta terra. Todo mundo é um pouco você mas um pouco curitibano. Todo mundo é curitibano. Todo mundo menos eu, que sou estrangeiro e sou baiano.





