LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Rosiane Correia de Freitas<br>Equipe Folha 
Você convida a pessoa para tomar café e lá vem a resposta: ''Mas só um cafezinho? Estou superocupada''. É sua festa de aniversário, mas a amiga só vai ''dar uma passadinha'' porque tem que tomar um drink na Si, visitar a Flá e ainda dar um pulo naquele bar novo. E nem pergunte pelo filme do Indiana Jones. Quem é que tem tempo para ir ao cinema?
Ser ocupado virou uma espécie de peça do marketing pessoal. Os discípulos dessa vida estão sempre ocupados. O dia tem só 24 horas, mas eles têm milhões de compromissos. Mal descem do carro e já estão com o dedo no celular, fazendo uma ligação. Não há um segundo a perder.
Se tem uma coisa que aprendi é que para essas pessoas jamais se deve perguntar como vai a vida. Lá se vai um tempo precioso ouvindo o quanto a pessoa é ocupada e tem muitas tarefas importantes para fazer e não poderia nem estar perdendo tempo comtigo. Tente agendar um horário com a figura e vai ouvir que ela vai arranjar um ''espacinho'' na agenda. Mas não sem antes dizer que, adivinhe só, está ocupadíssima.
Imagino que seja para esse povo que as operadores de turismo criam pacotes como Big Apple em 72 horas e Europa Fantástica - 24 cidades em cinco dias. Quem é que tem tempo para visitar o Louvre? Meus Deus, já imaginou o tempo que isso vai levar? Fiz um tour pelo Rio de Janeiro com um pessoal dessa tribo. Foi assim: aqui à esquerda vocês podem ver o Pão de Açúcar, e, um pouco à direita, o Corcovado. E isso é tudo pessoal!
No meu trabalho sou rápida. Apuro rápido, escrevo rápido. É parte do pacote para quem quer ser jornalista. Afinal não trabalho num anuário. A coisa aqui é diária, com horário fechado e sacramentado para ficar pronto. Ou você entrega a matéria ou esqueça. Não dá para terminar amanhã.
No entanto, sempre lembro do que uma professora me disse certa vez. Com uma calma franciscana aquela senhora ouviu eu reclamar de tudo aquilo que todo estudante adolescente reclama e disse: ''Se você não tem tempo é porque não deveria estar fazendo tudo isso. O importante da vida não é passar correndo. É estar sempre dando um passo à frente''. Acabou aí a mania de correr contra o relógio.
No fim entendi que de tudo que tinha para fazer, apenas duas ou três eram realmente importantes. O resto serve para nos manter ocupados e, assim, sentir que somos importantes. Afinal, gente importante está sempre desligando uma ligação para atender outra. Eu? Eu não sou importante. Só quero ser alguém que deu atenção para as boas coisas da vida.


