Fria, essa cidade, de modo que seu clima se faz desafio, como que impelindo a gente a ser forte a cada manhã. Todo dia é enfrentar pés gelados, fumaça saindo da boca, troca constante de roupas, que nunca são poucas; coisa louca essa - só pra manter a rima. Saudade dos dias que bastava bermuda e chinelo de dedo. Saudade de usar Havaianas por tempos a fio, sem que os dedos virem pedras de gelo tão frias quanto. É preciso que eu não gaste tantas palavras.
Fria, essa terra. Sua gente é muito presa a sua própria gente - dizem -, de forma que a gente fica a ver maré, que são prédios muito longos, mas longe de tampar, totalmente, a luz do sol: Ai, que saudade da Bahia. E aí, e vocês? Tudo bem com vocês? Aqui tudo bem, obrigado. Obrigado a ver outras paisagens.
De forma, porém, que vou entender tudo isso como um elogio. Quanta coisa louca acontece na vida da gente; e de toda a gente também. Então não há tanto sofrimento nisso, não me entenda mal. Só quero, peço encarecidamente, que me mande logo, tio, os meus livros que estão por aí. (Ai que medo que dá na gente, assim tão longe do nosso olhar, de que se percam, se estraguem, que a eles não seja destinado todo amor necessário! Ai que frio na espinha...).
Eu não imaginava, mas como um homem fica sozinho sem seus livros, meu Deus! - sem seus livros, esses pequenos objetos tão -. É preciso me interromper aqui para não fazer falsos julgamentos, principalmente nesse tempo de solidão maior que o momento que precede a criação do mundo. Olho as paredes nuas, o chão nu, as prateleiras que ainda nem existem - só na minha cabeça - também tão nuas que mais parecem um cão sem plumas, mas nunca uma mulher.
Mas o que eu queria dizer é isso, tio: manda logo esses malditos livros, por esse sangue baiano que nos une, por esse erre forte e puxado, do nórrrrte, que nos mantêm ligados. Você não imagina como sou sozinho aqui e como me iludo - mas do que é feita a matéria que nos permite senão de ilusão? Você não concorda? - com a imaginação de que com os livros e, por consequência disso, as paredes menos nuas, vou ser um homem muito mais feliz.
Enfim, é isso. Vou ficando por aqui. Meus dedos estão congelando. Ai que saudade da Bahia e da farofa da vó. Cordialmente.
P.S.: E aquele abraço do samba do Gil.

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