Leio, no frio da solidão, no cansaço da noite, leio a degradação física do personagem daquele grande escritor irlandês (como é o nome dele mesmo?); ou seria um escritor holandês (como se a Holanda tivesse grandes escritores que eu não li)? Estas questões do esquecimento sempre me colocam em pensamentos desnecessários. Mas a degradação da memória é parte de mim e de todos os homens e é sinal de que se vive - mas mesmo que eu estivesse tão interessado nisso, eu não conseguiria.
Relaciono o físico perdido desse personagem - os dentes ele não os tem há muito; as pernas ficaram duras, uma de cada vez; os braços estão inteiros pela metade, mas quem precisa de braços? - relaciono ao meu declínio intelectual. Sinto que é a derrota da razão, a derrocada da memória. Mas como eu já disse, ou acho que disse, me dá uma certa náusea de me ver lendo esse Moran, ou Molloy, acho que é isso. Se o é também, não faz tanta diferença assim.
Digo, não faz diferença para vocês, que eu nem conheço e que também nem me conhecem. Diferença faz em mim, enxergando você mesmo, no caso eu, refletido na pele de um mendigo - se é Molloy, então é irlandês, mas isso tanto faz em se tratando de um mendigo - um mendigo refletido em mim não no sentido de que eu seja um, mas que poderia bem ser se tivesse um maior desprendimento, se perdesse o emprego e a moral (que lindo isso seria em mim se eu tivesse coragem!). Um mendigo, digo, no sentido de que enquanto as pernas desse Molloy - que nome engraçado para um desgraçado - as pernas o deixem na mão e o fazem se arrastar até uma planície cheia de uma luz primaveril, minha cabeça tem vezes que, parece, não funciona direito; fica sempre faltando um pedaço de algo.
É como se se em vez de me arrastar para a luz, minha mente me levasse até confins escuros onde nunca estive. Não é bom. Não é uma imaginação que flui e que cria coisas maravilhosas. São sempre as mesmas elipses, formando uma mandala de emaranhados, que eu não sei muito bem. Uma confusão toda, é isso é que é e faz com que eu permaneça estático, o centro da paralisia ocidental. Mas isso tanto faz, digo, para vocês, que nem me conhecem e nem sabem a minha cara.

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