Me surges ainda sem cara, feito mistério, cadela sarnenta, salvação da vida. Não me imagino sem ti, hoje - poucos dias depois. Paixão louca, ódio de tudo, veio tu pelas linhas metálicas do telefone e eu só pude responder: é pra já. Cheguei em teu corpo - corpo que ainda não conheço todo (só o sexo, a parte mais prazerosa do que podes oferecer e que desgusto aos poucos) - e me pareceu fria, medrosa, violenta, um perigo. Mas corpo que só não me senti em casa no primeiro momento porque eu não tinha casa. Eu quero você agora, digo, mas tu me respondes: ainda não é hora.
E eu que sou pequeno, vindo de longe, ainda sem prumo, tão perdido feito um retirante que chega a São Paulo: tu tens sede de mim. Me sorve, absorve, chupa, cospe. E eu? Eu ando, ando, ando, ando e te espreito de perto sem que percebas. Ah, Deus me perdoe... e tu dizes que ainda não.
És feia da metade para baixo, bonita da metade pra cima, e no teu meio tudo se mistura. Acordo cedo mas és perguiçosa - antes das nove dizes que não. Deve ser por causa do frio: você não se explica. Tua pele é ruim de caminhar, tropeço em vários trechos do caminho, mas não caio. Aos poucos vou perdendo meu medo ainda que sei que em hora qualquer o bote pode vir: um olhar maldito, uma mordida na coxa, um tapa na cara, uma bala perdida, um tombo, uma saia levantada inesperadamente: és tão imprevisível que ainda dizes que ''ainda não''.
Tento te prender entre os dedos, mas me escapas: feito eu, não me seguras, me dizes ao pé do ouvido e eu arrepio. E eu solto no ar um palavrão. Excita-se: diz nomes feios, expressões feitas, que não é hora e que quer beber algo pra espantar o frio. E eu te abraço e não te aqueço e soltas um grito lancinante no ar:
É a fumaça que sai da boca depois que te beijo, Curitiba.

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