No começo parecia uma mancha marrom no vidro do corredor do edifício que cada dia ficava maior. Demorou algum tempo para que eu a identificasse, tratava-se da casa de um joão-de-barro em fase de construção. Nos dias de chuva, quando o barro ficava mais maleável, a obra avançava rapidamente. Mesmo nos domingos mais nublados e macambúzios, quando os humanos se enfarfalhavam em suas tocas de concreto, o bichinho continuava lá trabalhando, incansável.
Mas eis que quando já estava quase concluída, a casa do passarinho foi posta abaixo pelo zelador, que cumpria uma ordem da síndica de deixar a fachada do prédio com um aspecto mais ''clean''. Não se levou em conta o trabalho e o esforço que a criaturinha despendeu para construir sua morada. A bola de barro foi jogada no lixo sem nenhuma cerimônia. Para finalizar, colocaram no local um pedaço de uma fita de isolamento preta e amarela, tentando imprimir no bichinho o código do homem.
Não sei se existem pesquisas que indiquem quantas casas de joão-de-barro são destruídas todos os dias. Acho que devem ser muitas, pois a espécie é bem numerosa. Li em algum lugar que ela não utiliza o mesmo ninho por duas estações seguidas, então se cada casal for ter a sua própria casinha, deveriam ser centenas, quiçá milhares delas.
Logo me coloquei no lugar dele, sendo despejado por uma ordem judicial ou coisa que o valha, sendo arrastado aos berros por policiais truculentos enquanto um trator colocava minha casa abaixo. Que horror! Por que diabos tinham que tirar o bichinho dali?
Mas a natureza é sábia e não deu ao joãozinho a capacidade de praguejar e de lamentar seu destino como seus vizinhos humanos. Em silêncio ele reiniciou sua obra um andar acima, deixando para mim uma importante lição sobre a perseverança e a importância de recomeçar nossos projetos depois da vida colocá-los abaixo.

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