Ainda não faz um ano, mas no meu primeiro aniversário de mudança não sei se vou comemorar. Quando nos mudamos para o atual apartamento, havia duas unidades à venda. A de cima tinha acabado de ser vendida, então optamos pelo segundo andar. Apartamento antigo, amplo, paredes grossas. Um sonho. Até que as obras do nosso futuro vizinho, que decidiu abrir a temporada de reformas quase no mesmo dia em que nos mudamos, começaram. Ele encontrou pedreiros pontuais e trabalhadores. Antes das sete já estavam todos no prédio, ávidos por começar a destruição das paredes. Sem perder o otimismo, pensei: ''obras acabam''.
Começamos a traçar o perfil de nossos novos vizinhos, que até então não conhecíamos. Eram bem perfeccionistas. Eliminaram várias paredes, trocaram o banheiro e a cozinha de lugar, o que rendeu algumas infiltrações no nosso apartamento. Todas consertadas com a promessa de que ''isso não aconteceria mais'' pelos pedreiros, bem simpáticos aliás. E trabalhadores. Ficavam até tarde todos os dias, com suas furadeiras, martelos e demais equipamentos sonoros.
Já estávamos nos acostumando com o único barulho constante daquela rua tranquila: o da reforma do terceiro andar. Foram mais ou menos oito meses de obras, o que deu até para traçar alguma intimidade com o barulho e rendeu jogos divertidos em casa: quem acertava o tipo de ferramenta utilizada naquele momento, não precisava lavar a louça. Música e televisão também foram abolidas do nosso apartamento para evitar o som dos efeitos especiais que vinha de cima. Ficamos mais introspectivos e silenciosos.
Um dia, finalmente, o caminhão de mudança chegou. Abrimos uma garrafa de vinho para comemorar o final da reforma e o início de uma nova era: sem barulho. Quando o carro dos nossos novos vizinhos estacionou, algo me disse que sentiria falta das reformas. O carro tinha duas cadeirinhas iguais de criança, instaladas lado a lado. Até aí tudo bem, também tenho uma filha pequena. Mas os ''meninos'' são gêmeos. Dois. Nunca vi exatamente o rosto deles. Afinal, estamos em Curitiba, onde vizinhos do mesmo edifício não costumam ter muita intimidade. Mas sei do que eles gostam de brincar.
Derramar bolinhas de gude no assoalho parece ser o jogo predileto das crianças. Elas também gostam de arrastar móveis juntas, geralmente às seis da manhã, quando acordam chorando e só páram depois de pular corda ou seja lá que objeto saltitante (e barulhento) é aquele. Tenho acordado mais cedo ultimamente. As olheiras aumentaram um pouco, mas acho que estou produzinho mais, ficando pouco em casa. Acho que é saudades do barulho dos martelos e furadeiras. Preciso deles para voltar a dormir.

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