LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de março de 2008
Maria Duarte<br> Equipe da Folha 
Uma das máximas do Direito diz que só existem leis porque existe o impulso de desobedecê-las, de fazer exatamente o contrário. Dia desses ouvi uma história que ilustra muito bem essa - digamos - tendência rebelde.
Quando foi proibida a venda de bebidas alcoólicas nas estradas, muitos motoristas foram flagrados com um isopor de cerveja gelada no carro. Na verdade, com ou sem proibição de venda de bebida, esse tipo de cena não é rara nos congestionamentos para descer ao Litoral, apesar do risco de os condutores serem surpeendidos pela Polícia Rodoviária.
Mas, claro, o 'motim' não se limitou a simplesmente carregar bebida no veículo.
O cúmulo da criatividade foi obra da dona de uma lanchonete na beira de uma estrada para as praias no Sul. Ela, que tinha boa parte do faturamento garantido pela venda de cerveja e pinga caseira, resolveu adaptar seu mix de produtos à proibição. Não vendeu mais garrafas de cerveja e doses da ''marvada''.
Do dia para a noite, a empreendedora senhora passou a colocar pinga em compotas. Compota de (pinga de) capim limão com cerejinhas; compota Isaura, com a pinga de mesmo nome e figos, compota de (pinga de) Minas e por aí vai. A prateleira estava cheia de opções para os fãs de ''doces''.
Ela diz que nunca vendeu tanta compota na vida. ''A lei a gente obedece. Copo de pinga eu não sirvo mais'', jura. ''Agora, até onde eu sei, ninguém vai preso por comer compota, né'', emendou, sorrindo.
A dona da lanchonete adaptou as leis à sua vida. Ela, aos 61 anos, é uma matriarca que sustenta seis pessoas -conforme a história contada pela própria. Perdeu o pai com nove anos e herdou dele o comércio, que administra com as irmãs mais velhas. Cuida do marido e três filhos, um deles desempregado, e de dois netos pequenos.
Se o ímpeto de burlar uma lei é inato, imagina quando coloca em risco o teto da família e o leite das crianças...


